domingo, 29 de outubro de 2017

Beijo roubado

Vermelho. No vestido floridinho de malha combinando com tênis, no batom meio cedo para aquele tom, no espírito à vontade e, inevitavelmente, no fundo do bolso. Parti com ares de livre, leve e solta para encontrar os camaradas na Praça da Harmonia e conferir os festejos que o Prata Preta e o Comuna que Pariu promoviam em comemoração aos 100 anos da Revolução Russa.
Cheguei no crepúsculo. Tarde quente. Roda de samba começando a pegar fogo, gente bonita reunida, um paquera (ainda se usa esse termo?) das antigas pintando no pedaço com uma cara que me pareceu mais linda do que da última vez que o vi, glicemia controlada, endorfina “nos trinques”. Meus pés já irrequietos começavam a acompanhar o toque do surdo, anunciando-me que essa baguncinha seria daquele jeito que eu gosto!
Ouvi uma voz angelical sussurrando-me baixinho a promessa que me fiz enquanto trancava a porta de casa: “hoje a campanha é ‘mico zero’, garota”. Recusei com convicção aos copos de cerveja gentilmente oferecidos pela rapaziada, explicando que, extraordinariamente, antes de escurecer só beberia água mineral. E quase fui antipática quando desfilei por eles com uma cumbuquinha comportada, cheia de caldo verde.
Olhei para o céu e a lua estava lá, alaranjada, me mandando um sorrisão gostoso. Uma já quase esquecida sensação deliciosa invadiu minha espinha dorsal e foi parar nos meus pulmões. A uma semana de comemorar mais uma primavera (e este, usa-se?) no grupo dos “enta”, saindo de uma bad amorosa com um hematoma do tamanho de uma chuteira e ainda roxinho na bunda, uns tríceps tristes e um “panceps” robusto me lembrando que de manhã não fui à academia porque Eparema não bastou para me ressuscitar, além de uma ninhada de preocupaçõezinhas piando na cachola, quem imaginaria que esse sábado seria capaz de me encontrar tão... feliz?
Então veio a noite com seu manto abençoado brindar à alegria do povo ocupando o espaço público por causa da poesia, da arte, da música, da festa. Um brinde aos folguedos! Um brinde à luta do trabalhador contra todas as formas seculares de opressão. Um brinde à liberdade de se ser quem se é, coisa da qual ninguém aqui vai abrir mão não, seu Doutor! Um brinde às ruas por onde passeia o João do Rio que há em todos nós. Um brinde à cultura popular brasileira. Um brinde aos orixás que nos protegem... salve a ibejada! Um brinde ao amor precioso que há de se dar apenas porque se quer e não custa nada. Outro brinde! Mais um! Um pouco mais de gelo na catuaba – Selvagem.
Há certa altura, seguindo os cabeções de Marx e Lênin em cortejo pela Gambôa, saco uma nota de vinte para comprar uma brahminha de um ambulante que empurrava um isopor pouco atrás de mim e que, provavelmente, acompanhara meus passos trôpegos já desde o começo da ladeira, próximo ao Sindicato dos Estivadores. Latão é seis!
Enquanto aguardava o troco, meu olhar já meio japonês viu o rosto risonho do jovem vendedor se aproximar do meu. Dei um passo pra trás, mas dois brações fortes envolveram-me a cintura e voltaram-me pra frente, apertando-me de encontro a um peito largo e agradavelmente suado. Feito Juliana com uma rosa e um sorvete na mão, fui girando, girando até quase perder o fôlego com aqueles lábios carnudos grudados por trinta segundos na minha boca. Um brinde aos inesperados e todas as suas surpresas!
Que me perdoem as amigas solteiras pela concorrência desleal, mas o caso é que definitivamente aconteceu de essa ser uma daquelas noites mágicas que me ocorrem de quando em nuca, em que os santos tramam alguma coisa lá no infinito, rabiscam um não sei quê no meu mapa astral e me escolhem entre tantas para receber umas graças e me presentear com uma luz radiante que a todos contagia. Um brinde a Virgem Maria! Olha que agora estou é a iluminar os caminhos dos perdidos, enternecer os corações dos duros, acalentar o choro dos sofridos, encorajar os punhos dos ofendidos, colorir as nuvens negras e – juro que não é de propósito – atrair alguns homens.  Mais um brinde de saideira, então, à falta de modéstia, porque a titia aqui está, ó: uma brasa, mora?
Domingão, secura na garganta, cabelos empastelados, olheira azul marinho na imagem do espelho, zumbido de trombetas desafinadas no ouvido, ergo-me das cinzas. Tiro meu cérebro do modo “economia de energia” e ponho-me a fazer umas contas, para ter uma noção de quanto é que essa divina farra me custou.
Sentindo a falta de uns trocados na carteira, começo a rebobinar o filme devagarzinho: barraca do caldo, água, catuaba, aqui dez, ali mais tanto – tô ferrada! – mais seis ali e... pausa! Cadê meu bendito troco? Lá estão catorze reais, iguais a confetes, esquecidinhos num branco total entre paralelepípedos, músculos ilusionistas, isopores e latões.
Vermelha! Eis a cor do nariz redondo desta palhaça que vos fala.
Uma dúvida, no entanto, ainda me aquece ao travesseiro: será que, em fevereiro, se eu der uma nota de cinqüenta, o malandro me enrola com um beijão de quarenta e quatro? 

Livia Mannini
(e ainda é só outubro/ 2017)