Vermelho. No vestido floridinho de malha combinando com
tênis, no batom meio cedo para aquele tom, no espírito à vontade e, inevitavelmente,
no fundo do bolso. Parti com ares de livre, leve e solta para encontrar os
camaradas na Praça da Harmonia e conferir os festejos que o Prata Preta e o
Comuna que Pariu promoviam em comemoração aos 100 anos da Revolução Russa.
Cheguei no crepúsculo. Tarde quente. Roda de samba começando
a pegar fogo, gente bonita reunida, um paquera (ainda se usa esse termo?) das
antigas pintando no pedaço com uma cara que me pareceu mais linda do que da
última vez que o vi, glicemia controlada, endorfina “nos trinques”. Meus pés já
irrequietos começavam a acompanhar o toque do surdo, anunciando-me que essa baguncinha
seria daquele jeito que eu gosto!
Ouvi uma voz angelical sussurrando-me baixinho a promessa
que me fiz enquanto trancava a porta de casa: “hoje a campanha é ‘mico zero’, garota”.
Recusei com convicção aos copos de cerveja gentilmente oferecidos pela
rapaziada, explicando que, extraordinariamente, antes de escurecer só beberia
água mineral. E quase fui antipática quando desfilei por eles com uma
cumbuquinha comportada, cheia de caldo verde.
Olhei para o céu e a lua estava lá, alaranjada, me
mandando um sorrisão gostoso. Uma já quase esquecida sensação deliciosa invadiu
minha espinha dorsal e foi parar nos meus pulmões. A uma semana de comemorar
mais uma primavera (e este, usa-se?) no grupo dos “enta”, saindo de uma bad amorosa com um hematoma do tamanho de
uma chuteira e ainda roxinho na bunda, uns tríceps tristes e um “panceps” robusto
me lembrando que de manhã não fui à academia porque Eparema não bastou para me
ressuscitar, além de uma ninhada de preocupaçõezinhas piando na cachola, quem
imaginaria que esse sábado seria capaz de me encontrar tão... feliz?
Então veio a noite com seu manto abençoado brindar à
alegria do povo ocupando o espaço público por causa da poesia, da arte, da
música, da festa. Um brinde aos folguedos! Um brinde à luta do trabalhador contra
todas as formas seculares de opressão. Um brinde à liberdade de se ser quem se
é, coisa da qual ninguém aqui vai abrir mão não, seu Doutor! Um brinde às ruas por
onde passeia o João do Rio que há em todos nós. Um brinde à cultura popular
brasileira. Um brinde aos orixás que nos protegem... salve a ibejada! Um brinde
ao amor precioso que há de se dar apenas porque se quer e não custa nada. Outro
brinde! Mais um! Um pouco mais de gelo na catuaba – Selvagem.
Há certa altura, seguindo os cabeções de Marx e Lênin em cortejo
pela Gambôa, saco uma nota de vinte para comprar uma brahminha de um ambulante
que empurrava um isopor pouco atrás de mim e que, provavelmente, acompanhara meus
passos trôpegos já desde o começo da ladeira, próximo ao Sindicato dos
Estivadores. Latão é seis!
Enquanto aguardava o troco, meu olhar já meio japonês viu
o rosto risonho do jovem vendedor se aproximar do meu. Dei um passo pra trás,
mas dois brações fortes envolveram-me a cintura e voltaram-me pra frente, apertando-me
de encontro a um peito largo e agradavelmente suado. Feito Juliana com uma rosa
e um sorvete na mão, fui girando, girando até quase perder o fôlego com aqueles
lábios carnudos grudados por trinta segundos na minha boca. Um brinde aos
inesperados e todas as suas surpresas!
Que me perdoem as amigas solteiras pela concorrência
desleal, mas o caso é que definitivamente aconteceu de essa ser uma daquelas
noites mágicas que me ocorrem de quando em nuca, em que os santos tramam alguma
coisa lá no infinito, rabiscam um não sei quê no meu mapa astral e me escolhem
entre tantas para receber umas graças e me presentear com uma luz radiante que
a todos contagia. Um brinde a Virgem Maria! Olha que agora estou é a iluminar os
caminhos dos perdidos, enternecer os corações dos duros, acalentar o choro dos
sofridos, encorajar os punhos dos ofendidos, colorir as nuvens negras e – juro
que não é de propósito – atrair alguns homens.
Mais um brinde de saideira, então, à falta de modéstia, porque a titia
aqui está, ó: uma brasa, mora?
Domingão, secura na garganta, cabelos empastelados, olheira azul marinho na
imagem do espelho, zumbido de trombetas desafinadas no ouvido, ergo-me das
cinzas. Tiro meu cérebro do modo “economia de energia” e ponho-me a fazer umas
contas, para ter uma noção de quanto é que essa divina farra me custou.
Sentindo a falta de uns trocados na carteira, começo a
rebobinar o filme devagarzinho: barraca do caldo, água, catuaba, aqui dez, ali
mais tanto – tô ferrada! – mais seis ali e... pausa! Cadê meu bendito troco? Lá estão
catorze reais, iguais a confetes, esquecidinhos num branco total entre
paralelepípedos, músculos ilusionistas, isopores e latões.
Vermelha! Eis a cor do nariz redondo desta palhaça que
vos fala.
Uma dúvida, no entanto, ainda me aquece ao travesseiro: será que, em
fevereiro, se eu der uma nota de cinqüenta, o malandro me enrola com um beijão de quarenta e quatro?
Livia Mannini
(e ainda é só outubro/ 2017)