sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Quaquaraquaquá 
Para Nika 

Sábado à noite, saio do Mundial munida de umas cervejas e apanho o Uber com uma amigona querida rumo à festa de aniversário leonino do Marcelo e da Simone, no Grajaú, cumprindo severamente as recomendações do convite: “venha a caráter”. Levei a sério. Talvez influenciada pela Terreirada Cearense de mais cedo, caprichei como pude na fantasia improvisada: rendas, cores, penduricalhos e o toque final com umas fitas laminadas no cabelo, para ficar bem claro que eu não costumo me vestir desse jeito todo dia não, viu Seu Doutor, mas hoje eu estou em estado de farra.  

Vidro meio aberto, ventão no rosto, minha amiga ri dos fiozinhos luminosos que faziam barulho balançandinho. Rimos. Estávamos com a bobeira solta. Rimos de novo.  

Aí ela me solta essa:  

- Puxa, tanta coisa ruim acontecendo ultimamente, esse país nesse estado, as pessoas morando na rua, agora esse exército... não é uma ofensa se a gente se divertir um pouquinho? Será que a gente tem mesmo o direito de ser feliz desse jeito?  

A festança foi sem-palavras. Evocamos os Erês. Dançamos, bebemos, cantamos, nos abraçamos e só não caímos na piscina porque o frio era lascado. Rimos mais ainda.  Hoje vejo as fotos que geral publicou. Todos – todos! – com uma gargalhadona na testa e brilho nos olhos, que o flash estourado amplificou.

Então acho que encontrei a resposta para a pergunta da minha amiga.  

Eles – os fascistas, os machistas, racistas, reacionários, homofóbicos, gordofóbicos, os “loucos por fobias”, os bolsonazis, os que corrompem e os corrompidos, os escrotos duma figa, os meu-umbiguistas, os filhos-da-putistas,  os pela-minha-famílias, os que jogam pedra na Geni, os que atiram e os que mandam atirar, os que tiram, os que fecham escolas de artes, que calam boca de professor, que estraçalham direitos trabalhistas, os caga-regras, os blasés de plantão, os que pintam de cinza, os golpistas...– querem proibir nossa risada. Querem cercear nossa alegria, cimentar nosso jogo de cintura, eletrocutar nosso coração, arrancar nosso humanismo a fórceps.  

Pois eles não passarão! Sabe por quê? Porque nossa resposta a essa canalha toda será uma imensa, prolongada, fantástica pirueta.  

Sinto informar, minha amiga, mas a gente não tem mais o direito de ser feliz. Agora a gente tem a obrigação. 

LM
(julho/2017) 

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

 “Como é por dentro outra pessoa?
Quem é que o saberá sonhar?”
(Fernando Pessoa)

 “Então a moça abocanhou
o dedão do pé dele e engoliu.
 (Mário de Andrade)

“- Epa! Nomopadrofilhospritossantamêin!
Avança, cambada de filhos-da-mãe,
que chegou minha vez!... ”
(João Guimarães Rosa)



Fábula Para Endorfinar Amigo ou Conversinha Mole Pra Boi Dormir

Para XXXX

            Era uma vez um ser vivo que habitava o planeta Terra. Ele não sabia de onde viera e nem para onde iria. Nem ao certo sabia como havia chegado aqui. Como todo ser vivo que habita o planeta Terra...


           
           Aquele ser vivo tinha uma mania engraçada de gostar de viver!
          Gostava de sol, de lua, de rua, de miar no telhado. Gostava de cachorro, ornitorrinco, taturana e traquitana. De cheiro de livro novo, de chiado de disco, de poeira de giz impregnada no jeans. De tampinha de caneta e de nave espacial. De pão na chapa com manteiga derretida e de motorzinho de dentista. De valeta, de luneta...
         De tudo que ia gostando pelo caminho, o ser vivo arrancava um pedacinho e guardava no coração. Ele tinha um coração enorme, cabia muita coisinha lá dentro!

                
                    Exceto as pererecas.
            O ser vivo tinha um bico muito comprido e doce, que usava para encantar pererecas. Ah, como adorava as brincadeiras com as rãs! Gostava do cheiro, do gosto, do barulho, da textura de suas peles, da flacidez de suas carnes, do jeito tolinho que elas têm.
            Mas como não era de engolir sapos, quando a noite chegava e as pererecas coaxavam já meio ranzinzas de fome, o ser vivo devolvia para a natureza uma a uma as tadinhas que levava no bico e voltava sozinho para seu ninho, para jantar um baião de dois.


            O ser vivo também gostava muito de reparar. Tudo ao seu redor lhe parecia tão impressionante! O joelho torto da menina sardenta no ponto de ônibus e a aura colorida da preta velha que descia descalça a ladeira não escapavam despercebidos a seu par de antenas atentas. A sacola dourada do maluco e a moeda de cinco centavos perdida no meio-fio. A mosca na sopa de Raul, o pêlo no ovo da pata choca, o caroço da azeitona dentro do pastel de feira do japonês. O cisco no olho da sogra e o fio de cabelo branco da noiva lhe interessavam. O diabo estampado na gravata do prefeito, o espírito do porco, o rei na barriga do bobo da corte. A timidez da puta, a libido da carola, a fé do cético, a dúvida na testa do professor, a grosseria do garçom, as sapatilhas do vizinho de bigode, o nariz lambuzado de chocolate da pequena suja, a asma do tenor, a caspa do doutor, o azar do goleiro e toda a sorte de geringonças que gentes levam penduradas na espinha.  
            O ser vivo gostava tanto de botar reparo nas gentes à sua volta que descobriu que era mesmo capaz de inventá-las.
            Então ele criou uma porção de gentes diferentes e emprestou suas roupas para elas. As criaturas eram fantásticas! E tinham cada ideia!
            Inventar gentes se tornou o passatempo mais importante do universo para aquele ser vivo. E ele fazia isso muito bem! Às vezes a gente até ficava em dúvida se quem falava com os trajes do ser vivo era o próprio ser vivo ou uma de suas gentes inventadas.
            Vinha gente de todo lugar conhecer as gentes que o ser vivo inventava. Era bonito de ver o servivozinho ser aplaudido de pé! E ele ficava muito feliz em fazer aquela gente sorrir. E também ria alto! E criava mais gentes e as vestia com mais roupas suas.
            Até que um dia ficou nu.



            Certas pessoas de língua afiada ficaram com medo do ser vivo, porque ele desfilava sem vergonha por elas às gargalhadas, balançando aquele coraçãozão pulando do peito estufado.
            Então as certas pessoas acharam certo espetar alfinetes no coração gigante do ser vivo.
            Decerto aquela zombaria lhe embargasse a glote e talvez ele até molhasse escondido a fronha de seu travesseirinho.  
            Mas o ser vivo era esperto! Uma pirueta, duas piruetas e zás: empurrava com a barriga os alfinetes bem lá para o fundo do coração, assoprava um tiquinho e se jogava no mundo feito foguete disparado no espaço. 



            O ser vivo gostava mesmo de viver!
            E quanta coisinha cabia dentro daquele coração enorme!
            Só que de tanto guardar pedacinhos de coisas e de tanto levar alfinetadas das certas pessoas de língua afiada, o coração enorme do ser vivo ficou muito pesado. E o coração quase destroçado-já pelas quinquilharias começou a sair pela boca.


            Para não virar do avesso, o ser vivo precisou endurecer seu coração gigante. O coração do ser vivo esfriou, esfriou, esfriou... até que ficou durinho feito pedra!
            O ser vivo fez muitos aniversários carregando seu coração pétreo e já nem se lembrava direito de ouvi-lo bater quando então aconteceu isso: o coração gigante, duro, gelado e pesado do ser vivo levou um coice!
            É que o burro bravo que morava lá dentro e adormecia embalado pelo chacoalhar das bugigangas despertou de seu sono profundo.
            O burro nasceu dentro do coração do ser vivo não se sabe como. Quando ainda era um burrito manso, obedecia ao ser vivo docilmente. Se o ser vivo estava feliz, pinoteava em festa. Se estava triste, o filho de uma égua empacava três semanas. Se por acaso o ser vivo sentia dor de estômago, o burro desembestava a falar até o ser vivo arrotar tudo o que estivesse entalado nas vísceras.
            Mas depois que o coração gigante do ser vivo empedrou, o asno se emburrou. Vai ver fosse um sufoco morar naquele lar apertado...  
            O caso é que o jerico despertou babado de sede!
            Então o ser vivo cultivou umas nuvens cinzas que cresceram, cresceram e choveram água-que-passarinho-não-bebe.
            O burro bebeu da água-que-passarinho-não-bebe e ficou tão forte e tão bravo que arrebentou a linha que o amarrava e escapou do coração, fugindo pelos poros. Aí o burro bravo encarou o ser vivo de frente, meteu-lhe um cabresto e cravou-lhe as esporas. E o ser vivo cavalgou com seu jegue montado no lombo até o oco do inferno.



            Mas o ser vivo gostava muito mesmo de viver! E achou aquilo divertido! Teve a sensação de que agora usava 100% de sua cabeça animal e relinchou orgulhoso, sacudindo as cangalhas. Foram sete madrugadas viradas no jiraya. Por onde passava, o ser vivo levantava poeira e deixava um rastro.
            Quando a farra terminou, o ser vivo amarrou o burro novamente no coração e cantou para niná-lo.
            Então o ser vivo criou gentes cheias de vazio. As criaturas falavam feito o homem da cobra e eram surdas e secas que nem cactos.
            As certas pessoas de língua afiada ficaram ainda mais temerosas do ser vivo e espetaram mais alfinetes em seu coração. Os alfinetes despertaram o burro bravo, que acordou com muita sede.
            O ser vivo cultivou nuvens cinzas que choveram água-que-passarinho-não-bebe, aí o burro bebeu da água-que-passarinho-não-bebe, ficou forte e bravo, escapou do coração, encarou o ser vivo de frente, meteu-lhe um cabresto, cravou-lhe as esporas, o ser vivo cavalgou com seu jegue montado no lombo até o oco do inferno, achou divertido e quando a farra terminou, o ser vivo amarrou o burro novamente no coração, cantou para niná-lo e criou gentes cheias de vazio, então as certas pessoas de língua afiada ficaram ainda mais temerosas do ser vivo e espetaram mais alfinetes em seu coração e  os alfinetes despertaram o burro bravo que acordou com sede e o ser vivo cultivou nuvens cinzas que choveram água-que-passarinho-não-bebe, aí o burro bebeu da água-que-passarinho-não-bebe, ficou forte e bravo, escapou do coração, encarou o ser vivo de frente, meteu-lhe um cabresto, cravou-lhe as esporas, o ser vivo cavalgou com seu jegue montado no lombo até o oco do inferno, achou aquilo divertido e quando a farra terminou, o ser vivo amarrou o burro novamente no coração, cantou para niná-lo e criou gentes cheias de vazio, então as certas pessoas de língua afiada ficaram ainda mais temerosas do ser vivo e espetaram mais alfinetes em seu coração e os alfinetes despertaram o burro bravo que acordou com sede e o ser vivo cultivou nuvens cinzas que choveram água-que-passarinho-não-bebe, aí o burro bebeu da água-que-passarinho-não-bebe, ficou forte e bravo, escapou do coração, encarou o ser vivo de frente, meteu-lhe um cabresto, cravou-lhe as esporas, o ser vivo cavalgou com seu jegue montado no lombo até o oco do inferno, achou aquilo muito divertido e quando a farra terminou, o ser vivo amarrou o burro novamente no coração, cantou para niná-lo e...
            ... o burro bravo estava dormindo quando de repente uma ficha que rodopiava no vento despencou igual uma vaca na cabeça do ser vivo.
            O ser vivo ficou tonto com a pancada e até se esqueceu do que-horas-são. Subiu um degrauzinho de uma escada torta que tinha ali e enxergou uma bifurcação mais adiante. Subiu outro degrauzinho, fechou um olho para olhar melhor e avistou dois futuros.
            No futuro-do-lado-de-cá, o ser vivo era bem velhinho e barbudo e banguela e se cobria com um manto azul-roto. Todo senhor de si, empunhava um cajado e blasfemava no centro da praça feito um deus! E inventava gentes com rabo de rato e chifres de boi, que vendia nas esquinas pelo preço de um dedo de prosa. Todas as certas pessoas de língua afiada o temiam. Como se tornara poderoso o ser vivo, naquele sentido de futuro!
            Olhou para o futuro-do-lado-de-lá, mas seu olho não viu nada. Ficou na pontinha dos pés, esticou o pescoço, procurou, procurou e nada. Nenhuma pista.



            Mas o ser vivo gostava mesmo muito de viver e tinha curiosidade. Então ele resolveu caminhar até lá para descobrir o que havia. Mas ao dar o primeiro passo, o burro bravo acordou com sede e lhe deu um coice.
            Foi aí que o ser vivo experimentou um sentimento novo, potente, inexorável: o ser vivo sentiu raiva. Uma raiva-raiventa de dar nó nas tripas. Raiva de ter raiva. Raiva do seu burro bravo! E ficou verde de raiva.
            Com a força que tinha no fígado, o ser vivo encarou o burro de frente, meteu-lhe a mordaça e cravou-lhe as garras. A besta empinou as ferraduras e, debochando, derrubou o ser vivo de primeira!  O ser vivo se levantou, ajeitou o coração enorme mais pro canto esquerdo, encheu os pulmões de ar e sentiu mais raiva ainda. Então, com mais raiva e com mais força, o ser vivo encarou o burro de frente, meteu-lhe a mordaça e cravou-lhe as garras. A besta empinou as ferraduras e, debochando, derrubou o ser vivo na segunda! Aí o ser vivo segurou uma primavera inteira entre os dentes e com muito mais força e com muito mais raiva, encarou o burro de frente, meteu-lhe a mordaça e cravou-lhe as garras. Então o quadrúpede se espreguiçou, espantou uma pulga da orelhinha e acabou-se a peleja genial.



            O ser vivo juntou uns paninhos de bunda, meteu uma viola no bornal e partiu equilibrado no jegue, em direção ao futuro-do-lado-de-lá. Caminhavam em harmonia os dois, ora ligeiro, ora preguiçosos.
            A certa altura, estavam bem distraídos caçando sombra de avião quando se depararam com uma fera na beira da trilha. O nome da fera era Bia e ela era a dona daquela vereda.
            A fera encarou o ser vivo no além dos olhos, grudou-lhe uma estrela na testa e, sem falar palavra, a Bia lhe sorriu.
            E nessa hora, o burro sentiu toda a sede da estiagem evaporar sua saliva. O ser vivo desceu do burro e foi com seu cantil buscar leite de jaca numa bica, para seu mulo beber. O jumento bebeu do leite de jaca, soltou baixinho um atchim e acelerou seu pocotar.
            À medida que seguiam pelos trilhos da locomotiva, na estrada do futuro-do-lado-de-lá, a Bia ia espalhando uns presentes para o ser vivo recolher: um jabuti, um papel, um alto-falante, um bambolê, uma ruga. Mas o coraçãozão do ser vivo já não tinha mais espaço para guardar tantas coisas queridas demais. O coração enorme até parecia que ia explodir!
            Então o ser vivo libertou as coisinhas que havia dentro de seu coraçãozão e desprendeu todos os alfinetes. As coisas que serviam só para o nada, ele enterrou a sete palmos e jogou por cima uma pá de cal. As coisinhas cristalizadas, ele lapidou com ponta de diamante. As mais bonitas, ele guardou nas gavetas dali do coração. Umas menores, assoprou igual dente-de-leão. E devolveu aos seus donos os mil perdões que lhes devia.
            Eis que o coração do ser vivo reamoleceu e ficou leve, leve, levinho... até que coube outra vez por dentro do peito.
            Um dia a Bia presenteou o ser vivo com um par de asas. Ele vestiu suas asas e mirou o espelho. Como estava belo e como seus olhos brilhavam longe! E o ser vivo quis voar.
            O espelho explicou ao ser vivo que para alçar vôo ele tinha de abrir a mão, torcer o braço e dar de ombros para seu burro. Então o ser vivo guardou o burro numa gaiola, pendurou-a dentro de seu coraçãozinho e cantou a música mais bonita de todas para o animal ninar.
            Satisfeito e confiante, o espelho desatarraxou o umbigo do ser vivo, virou-o de costas e lhe pregou um cu.
            E lá se foi o ser vivo todo lindo pela vida, empetecar as páginas brancas de seu caderninho de artista.
            Dizem que desde aquela feita o ser vivo cuida de seu cu como uma onça cuida da cria. E nunca, NUNCA se ouvira dizer que tenha se metido em alguma burrada.  
            Falam também que seu jumento segue roncando deveras e que seu coração pulsa um baticum bem ritmado. Soube-se que a estrela em sua testa finalmente se acendeu.  De certas pessoas não se tem notícias.
            E o ser vivo inventou um anjo.




Livia Mannini

(novembro/ 2016)




Dia-a-dia, post-a-post...


Pantera
Dependente confessa de cafeína, abro o armário da dispensa logo cedo procurando meu pozinho mágico e dou de cara com uma aranha balançando uma teia nova, cruzando o vazio de lado a lado. Tentei pegar no tranco... 
Respondi rabugenta a uns e-mails aqui, uma mensagem de WhatsApp acolá, mas minha concentração estava realmente pifante.
Com a determinação e energia de uma esponja-do-mar, enfiei-me na primeira vestimenta que puxei do cabide, prendi um rabo de cavalo para disfarçar a tragédia capilar matutina e desci trôpega pela escadaria do bairro de Fátima, ansiosa por chegar com o dedão do pé ileso ao bar da esquina, debaixo de um vestido de malha cor-de-rosa – chock – com listras pretas. 

Aproveitaria a descida para pagar contas no caixa eletrônico, recarregar celular e mais uns dois etcétereas pelo caminho. 
Não sei se porque frio ou fraco, ou se porque a reportagem na TV sobre sapatilhas femininas instigava uma soneca, o fato é que o café-com-leite rapidinho no balcão não foi suficiente para despertar minhas pálpebras direito. E isso eu bem pude comprovar ao tropeçar na bengala de uma senhorinha que saía da agência bancária, quase provocando um boletim de ocorrência. 
Rendida, virei à esquerda e entrei no supermercado, disposta a ser ligeira e não me deixar persuadir pelo silfos das prateleiras insistentes em me lembrar que também precisava comprar leite, que acabou o queijo ralado, que o vinho chileno está em promoção e que o sabão em pó só dá para mais uma baciada.
Passei a meia-dúzia de coisinhas pelo caixa, recarreguei o pré-pago – inclusive descobri que as operadoras de caixa que mais efetuam recargas de celulares no mês ganham como premiação um dia de folga – desvencilhei-me das sempre tão grudadas sacolas plásticas e pus-me a conferir o recibo, desconfiada da facada. 
Zás! O Extra dando um rolé de R$ 2,30 a mais no quilo do arroz integral! Fui lá conversar com o gerente mui solícito, que percebendo a barbárie das etiquetas invertidas, olhou compreensivo para minha cara amassada e concordou em restituir-me os trocados. 
- Meia passagem de metrô! – respondi, grata, com uma piscadinha.
Saí dali rebolante, coluna ereta, queixo pra cima, tentando não arquear os ombros com o peso das sacolas – aqui, bolsas. 
Cruzo a rua, caminho 2 quadras e passo em frente ao mesmo boteco do desjejum, que agora já reunia os habitués matinais: um senhor com jornal em punho resmungando qualquer coisa sobre a prefeitura, o taxista e um outro sujeito, caninha no bico às 10h, que ao me ver passar daquele jeito, Empoderada da Silva, soltou com um sorrisinho malandro uma mistura de cantada manjada com feedback sincero, como só os bêbados sabem fazer:
- Param-param, param, param-param-param-param-param... pararam-pararam. 
Entre pingas e pingados, cada um com seus vícios.


(16/05/2017)

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Intervalo pro almoço durante uma formação na Barra, pouco depois de eu ter feito umas perguntas no auditório, com meu indisfarçável sotaque que involuntariamente insiste em emitir aquele R retroflexo e acentuar com força as paroxítonas. 
Peço licença pra sentar-me à mesa com uns participantes que ainda não conhecia. O colega me surpreende: "Paulista, né? De São Bernardo do Campo, né? 
" Orra, meeeeu! Como é que ele conseguiu ser tão específico? Só me restou pedir o prato:

- Garrrrrçom , porrrr favorrrr, tem frango com polêêêênta?

(11/04/2017)

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- Motorista, dirija com mais cuidado. O senhor está sacolejando a gente. Precisa lembrar que está transportando pessoas. Sua direção é muito perigosa! - disse uma voz trêmula no fundo do ônibus extraordinariamente vazio, a caminho da praça XV.
- Minha senhora, reclame com a prefeitura e peça para tamparem esses buracos da rua. E a senhora pode ir sentadinha aí que não vai acontecer nada. Por que está em pé?...
E iniciou-se o bate-boca. Outra mulher se solidarizou com a senhorinha e engrossou o caldo:
- Nós pagamos o seu salário!
Aí a senhorinha manda essa:
- Pode abrir, vou descer aqui.
Motorista no contra-ataque:
- Aqui não é ponto, minha senhora.
Pense numa senhorinha indignada.
Tentei abstrair, mas não consegui:
- Dá licença de meter meu bedelho. A senhora está certa, o motorista está dirigindo muito mal, mesmo. Mas ele também tem razão, porque não pode parar fora do ponto.
Plaft, ploft, pum....paw, pow, pumba pra cima de mim.
Ri feliz, por dentro, enquanto ambas as partes, agora de acordo, resmungavam abaixando a voz adjetivos como "intrometida", "abusada" etc. etc..
Ai, ai... Tão fácil desagradar a gregos e troianos...

(20/03/2017)

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Desço do Troncal 2 em Ipanema, ajeito a mochila pra pegar o celular, cadê? Bolso aberto por mãos experientemente leves. Fiquei puta. Corri pra frente do busão, fiz o motorista parar, entrei e mandei com cara séria:
- Pessoal, é o seguinte: meu celular está dentro deste ônibus. Então, por favor, quem tiver encontrado joga no chão e está tudo certo. Eu dependo dele pra trabalhar. Pode ser?
Virei pro lado pra pessoa não ter o constrangimento de ser identificada. 15 segundos e um burburinho lá no fundo: "achou, aqui, aqui".
Recuperei o aparelho finalizando com um sermãozinho, olhando pra geral: 
- Valeu, maluco. Mas vê se pensa melhor pra saber se vale a pena fazer essas merdas na vida. 
Dia de sorte. Ultimamente o jeito é chamar o ladrão, mesmo.


(19/02/2017)

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Sexta-feira, fim de expediente, já vou logo avisando: se me der na telha, amarro meu turbante vermelho, penduro o crucifixo por dentro do bojo, jogo katchup na pamonha, trago umas tequilas, me agarro com Iansã, pinto a cara com urucum e rodo uma saia indiana entoando marchinhas politicamente incorretas com meus amigos gays no forrobodó lá da esquina. Depois curo minha overdose antropofágica com do-in e chá de boldo. 
Porque cultura na pimenta dos outros é bom e eu gosto.

(17/02/2017)


A MENINA QUE NÃO COME

Eu cheguei com tanta fome
Não dava para agüentar
Abri logo a geladeira
Pra ver o que ia arranjar
Mas lá dentro: só espaço
Alimento estava escasso
E eu querendo almoçar

Comecei fuçar o armário
Procurando o que comer
Vira, remexe, abre e fecha
Só um pão a apodrecer
Minha barriga vazia
Àquela hora tardia
Começava a retorcer

Tive então mais uma idéia:
- Vou pedir para a vizinha,
Que nunca negou ajuda,
algo de sua cozinha:
um biscoito ou um café,
ou pode ser um chiclé,
aceito qualquer coisinha

A vizinha respondeu
Que também não tinha nada
Ela, tanto quanto eu,
Estava toda estrepada
Porque o marido pedia
Pra fazer economia
Comendo só farinhada.

Voltei pra casa de novo
Imaginando este fato:
Arroz, feijão pão com ovo,
Chuchu, churrasco de gato,
Quiabo cozido com alho
Tapioca, queijo coalho
Misturado no meu prato

 Para não ficar maluca,
Doida de pedra, pinel,
Resolvi pegar um lápis,
Uma borracha, papel
E pro tempo passar, homem
Enganei a minha fome
Escrevendo este Cordel.

Foi uma história comprida
Já me faltava elemento
Pra compor estas setilhas
Falando com sentimento
E até uns versos menores
Ficariam muito melhores
Se eu tivesse alimento

Mas não fugi da peleja
Desembestei a escrever
Peitei a fome de frente
Pra ver quem iria vencer
A mente que raciocina,
Pega as palavras, combina
Ou a vontade de comer

Cada hora que a barriga
Doía por dentro, gemia
Eu lembrava uma palavra
Que no papel escrevia
A fome apertava tanto
Fui reparar com espanto
Que até as letras comia

Primeiro engoli um “A”
Que tem na água de beber
No arroz, na alface, na amora
Que é fruta boa de lamber
E sem prestar atenção
Com tanta salivação
Mastiguei a letra “B”

 Depois eu comi um “C”
Cebola que faz arder
Cominho, cuscuz com coentro
Cana dura de morder
Estava tão distraída
Virando letra em comida
Que engoli a letra “D”.

Em seguida foi um “E”
Letrinha mais mequetrefe!
Como ainda tinha fome
Sem pensar comi um “F”
Farofa, fava, feijão
Comi uma letra então
Que desta estrofe foi chefe

Engraçado foi um “G”
Grudando em todo lugar
Na língua, goto e garganta
Difícil de mastigar
Outra tinha gosto bom
Mas como não tinha som
Engasguei! Era um “H”

Comi um “I” inteirinho
Desde o cabinho à bolota
E de tanta indecisão
Pensando “Bota ou não bota?”
Escrevi “jiló” com “gi”
“Gibóia”, “gejum” e fugi
Digerindo a letra “J”

Meu estômago roncava
Minha mão num treme-treme
Comecei a escrever rápido
Contando do geme-geme
Ao rimar com mais vigor
Esqueci-me até de pôr
Mais um “L”, um “N” e um “M”.

 Acelerando o compasso
Engoli nem sei por que
Três letras em um só verso
Pensando “Comer o quê?”
E ficou muito esquisito
Aquilo que tinha escrito
Sem um “O”, um “P” e um “Q”.

Existe pouco alimento
Que nasce no solo agreste
Pensando por um momento
Parei pra fazer um teste
Se todo mundo soubesse...
Engoli “T”, “R” e o “S”
Tentando escrever Nordeste.

De tanto que eu comi letra
Nestes versos que aqui fiz
Esta história ficou torta
Com as rimas por um triz
Mas prossegui escrevendo
Quando vi estava comendo
As letras “U”, “V” mais “X”.

Já um pouco aborrecida
Sem saber o que fazer
Sem palavra, nem comida
Nem mais nada pra dizer
Foi talvez por desespero
Ou por falta de esmero
Que também comi um “Z”.

Então eu disse “Já chega”
Mesmo morrendo de fome
Terminei este Cordel
Que precisava de nome
Só pensava em alimento
Mas chegou no pensamento
“A menina que não come”

Literatura é a arte
Inventada por prazer
Verdades pode conter
Imitar também faz parte
A vida é quem vai dizer.


(2004)