“Como é por dentro outra pessoa?
Quem é que o saberá sonhar?”
(Fernando Pessoa)
“Então
a moça abocanhou
o dedão do pé dele e engoliu.”
(Mário
de Andrade)
“- Epa!
Nomopadrofilhospritossantamêin!
Avança, cambada de
filhos-da-mãe,
que chegou minha
vez!... ”
(João Guimarães Rosa)
Fábula
Para Endorfinar Amigo ou Conversinha Mole Pra Boi Dormir
Para XXXX
Era
uma vez um ser vivo que habitava o planeta Terra. Ele não sabia de onde viera e
nem para onde iria. Nem ao certo sabia como havia chegado aqui. Como todo ser
vivo que habita o planeta Terra...
Aquele
ser vivo tinha uma mania engraçada de gostar de viver!
Gostava
de sol, de lua, de rua, de miar no telhado. Gostava de cachorro, ornitorrinco, taturana
e traquitana. De cheiro de livro novo, de chiado de disco, de poeira de giz
impregnada no jeans. De tampinha de caneta e de nave espacial. De pão na chapa com
manteiga derretida e de motorzinho de dentista. De valeta, de luneta...
De
tudo que ia gostando pelo caminho, o ser vivo arrancava um pedacinho e guardava
no coração. Ele tinha um coração enorme, cabia muita coisinha lá dentro!
Exceto
as pererecas.
O
ser vivo tinha um bico muito comprido e doce, que usava para encantar pererecas.
Ah, como adorava as brincadeiras com as rãs! Gostava do cheiro, do gosto, do
barulho, da textura de suas peles, da flacidez de suas carnes, do jeito tolinho
que elas têm.
Mas
como não era de engolir sapos, quando a noite chegava e as pererecas coaxavam
já meio ranzinzas de fome, o ser vivo devolvia para a natureza uma a uma as
tadinhas que levava no bico e voltava sozinho para seu ninho, para jantar um
baião de dois.
O
ser vivo também gostava muito de reparar. Tudo ao seu redor lhe parecia tão impressionante!
O joelho torto da menina sardenta no ponto de ônibus e a aura colorida da preta
velha que descia descalça a ladeira não escapavam despercebidos a seu par de
antenas atentas. A sacola dourada do maluco e a moeda de cinco centavos perdida
no meio-fio. A mosca na sopa de Raul, o pêlo no ovo da pata choca, o caroço da
azeitona dentro do pastel de feira do japonês. O cisco no olho da sogra e o fio
de cabelo branco da noiva lhe interessavam. O diabo estampado na gravata do
prefeito, o espírito do porco, o rei na barriga do bobo da corte. A timidez da
puta, a libido da carola, a fé do cético, a dúvida na testa do professor, a
grosseria do garçom, as sapatilhas do vizinho de bigode, o nariz lambuzado de
chocolate da pequena suja, a asma do tenor, a caspa do doutor, o azar do goleiro
e toda a sorte de geringonças que gentes levam penduradas na espinha.
O
ser vivo gostava tanto de botar reparo nas gentes à sua volta que descobriu que
era mesmo capaz de inventá-las.
Então
ele criou uma porção de gentes diferentes e emprestou suas roupas para elas. As
criaturas eram fantásticas! E tinham cada ideia!
Inventar
gentes se tornou o passatempo mais importante do universo para aquele ser vivo.
E ele fazia isso muito bem! Às vezes a gente até ficava em dúvida se quem
falava com os trajes do ser vivo era o próprio ser vivo ou uma de suas gentes
inventadas.
Vinha
gente de todo lugar conhecer as gentes que o ser vivo inventava. Era bonito de
ver o servivozinho ser aplaudido de pé! E ele ficava muito feliz em fazer
aquela gente sorrir. E também ria alto! E criava mais gentes e as vestia com
mais roupas suas.
Até
que um dia ficou nu.
Certas
pessoas de língua afiada ficaram com medo do ser vivo, porque ele desfilava sem
vergonha por elas às gargalhadas, balançando aquele coraçãozão pulando do peito
estufado.
Então
as certas pessoas acharam certo espetar alfinetes no coração gigante do ser
vivo.
Decerto
aquela zombaria lhe embargasse a glote e talvez ele até molhasse escondido a
fronha de seu travesseirinho.
Mas
o ser vivo era esperto! Uma pirueta, duas piruetas e zás: empurrava com a
barriga os alfinetes bem lá para o fundo do coração, assoprava um tiquinho e se
jogava no mundo feito foguete disparado no espaço.
O
ser vivo gostava mesmo de viver!
E
quanta coisinha cabia dentro daquele coração enorme!
Só
que de tanto guardar pedacinhos de coisas e de tanto levar alfinetadas das
certas pessoas de língua afiada, o coração enorme do ser vivo ficou muito
pesado. E o coração quase destroçado-já pelas quinquilharias começou a sair
pela boca.
Para
não virar do avesso, o ser vivo precisou endurecer seu coração gigante. O
coração do ser vivo esfriou, esfriou, esfriou... até que ficou durinho feito
pedra!
O
ser vivo fez muitos aniversários carregando seu coração pétreo e já nem se lembrava
direito de ouvi-lo bater quando então aconteceu isso: o coração gigante, duro,
gelado e pesado do ser vivo levou um coice!
É
que o burro bravo que morava lá dentro e adormecia embalado pelo chacoalhar das
bugigangas despertou de seu sono profundo.
O
burro nasceu dentro do coração do ser vivo não se sabe como. Quando ainda era
um burrito manso, obedecia ao ser vivo docilmente. Se o ser vivo estava feliz, pinoteava
em festa. Se estava triste, o filho de uma égua empacava três semanas. Se por acaso
o ser vivo sentia dor de estômago, o burro desembestava a falar até o ser vivo
arrotar tudo o que estivesse entalado nas vísceras.
Mas
depois que o coração gigante do ser vivo empedrou, o asno se emburrou. Vai ver fosse
um sufoco morar naquele lar apertado...
O
caso é que o jerico despertou babado de sede!
Então
o ser vivo cultivou umas nuvens cinzas que cresceram, cresceram e choveram
água-que-passarinho-não-bebe.
O
burro bebeu da água-que-passarinho-não-bebe e ficou tão forte e tão bravo que arrebentou
a linha que o amarrava e escapou do coração, fugindo pelos poros. Aí o burro
bravo encarou o ser vivo de frente, meteu-lhe um cabresto e cravou-lhe as
esporas. E o ser vivo cavalgou com seu jegue montado no lombo até o oco do
inferno.
Mas
o ser vivo gostava muito mesmo de viver! E achou aquilo divertido! Teve a
sensação de que agora usava 100% de sua cabeça animal e relinchou orgulhoso,
sacudindo as cangalhas. Foram sete madrugadas viradas no jiraya. Por onde
passava, o ser vivo levantava poeira e deixava um rastro.
Quando
a farra terminou, o ser vivo amarrou o burro novamente no coração e cantou para
niná-lo.
Então
o ser vivo criou gentes cheias de vazio. As criaturas falavam feito o homem da
cobra e eram surdas e secas que nem cactos.
As
certas pessoas de língua afiada ficaram ainda mais temerosas do ser vivo e
espetaram mais alfinetes em seu coração. Os alfinetes despertaram o burro bravo,
que acordou com muita sede.
O
ser vivo cultivou nuvens cinzas que choveram água-que-passarinho-não-bebe, aí o
burro bebeu da água-que-passarinho-não-bebe, ficou forte e bravo, escapou do
coração, encarou o ser vivo de frente, meteu-lhe um cabresto, cravou-lhe as
esporas, o ser vivo cavalgou com seu jegue montado no lombo até o oco do
inferno, achou divertido e quando a farra terminou, o ser vivo amarrou o burro
novamente no coração, cantou para niná-lo e criou gentes cheias de vazio, então
as certas pessoas de língua afiada ficaram ainda mais temerosas do ser vivo e
espetaram mais alfinetes em seu coração e
os alfinetes despertaram o burro bravo que acordou com sede e o ser vivo
cultivou nuvens cinzas que choveram água-que-passarinho-não-bebe, aí o burro
bebeu da água-que-passarinho-não-bebe, ficou forte e bravo, escapou do coração,
encarou o ser vivo de frente, meteu-lhe um cabresto, cravou-lhe as esporas, o
ser vivo cavalgou com seu jegue montado no lombo até o oco do inferno, achou
aquilo divertido e quando a farra terminou, o ser vivo amarrou o burro
novamente no coração, cantou para niná-lo e criou gentes cheias de vazio, então
as certas pessoas de língua afiada ficaram ainda mais temerosas do ser vivo e
espetaram mais alfinetes em seu coração e os alfinetes despertaram o burro
bravo que acordou com sede e o ser vivo cultivou nuvens cinzas que choveram
água-que-passarinho-não-bebe, aí o burro bebeu da água-que-passarinho-não-bebe,
ficou forte e bravo, escapou do coração, encarou o ser vivo de frente,
meteu-lhe um cabresto, cravou-lhe as esporas, o ser vivo cavalgou com seu jegue
montado no lombo até o oco do inferno, achou aquilo muito divertido e quando a
farra terminou, o ser vivo amarrou o burro novamente no coração, cantou para
niná-lo e...
...
o burro bravo estava dormindo quando de repente uma ficha que rodopiava no
vento despencou igual uma vaca na cabeça do ser vivo.
O
ser vivo ficou tonto com a pancada e até se esqueceu do que-horas-são. Subiu um
degrauzinho de uma escada torta que tinha ali e enxergou uma bifurcação mais
adiante. Subiu outro degrauzinho, fechou um olho para olhar melhor e avistou
dois futuros.
No
futuro-do-lado-de-cá, o ser vivo era bem velhinho e barbudo e banguela e se
cobria com um manto azul-roto. Todo senhor de si, empunhava um cajado e
blasfemava no centro da praça feito um deus! E inventava gentes com rabo de rato
e chifres de boi, que vendia nas esquinas pelo preço de um dedo de prosa. Todas
as certas pessoas de língua afiada o temiam. Como se tornara poderoso o ser
vivo, naquele sentido de futuro!
Olhou
para o futuro-do-lado-de-lá, mas seu olho não viu nada. Ficou na pontinha dos
pés, esticou o pescoço, procurou, procurou e nada. Nenhuma pista.
Mas
o ser vivo gostava mesmo muito de viver e tinha curiosidade. Então ele resolveu
caminhar até lá para descobrir o que havia. Mas ao dar o primeiro passo, o
burro bravo acordou com sede e lhe deu um coice.
Foi
aí que o ser vivo experimentou um sentimento novo, potente, inexorável: o ser
vivo sentiu raiva. Uma raiva-raiventa de dar nó nas tripas. Raiva de ter raiva.
Raiva do seu burro bravo! E ficou verde de raiva.
Com
a força que tinha no fígado, o ser vivo encarou o burro de frente, meteu-lhe a
mordaça e cravou-lhe as garras. A besta empinou as ferraduras e, debochando,
derrubou o ser vivo de primeira! O ser
vivo se levantou, ajeitou o coração enorme mais pro canto esquerdo, encheu os
pulmões de ar e sentiu mais raiva ainda. Então, com mais raiva e com mais
força, o ser vivo encarou o burro de frente, meteu-lhe a mordaça e cravou-lhe as
garras. A besta empinou as ferraduras e, debochando, derrubou o ser vivo na segunda!
Aí o ser vivo segurou uma primavera inteira entre os dentes e com muito mais
força e com muito mais raiva, encarou o burro de frente, meteu-lhe a mordaça e
cravou-lhe as garras. Então o quadrúpede se espreguiçou, espantou uma pulga da
orelhinha e acabou-se a peleja genial.
O
ser vivo juntou uns paninhos de bunda, meteu uma viola no bornal e partiu
equilibrado no jegue, em direção ao futuro-do-lado-de-lá. Caminhavam em
harmonia os dois, ora ligeiro, ora preguiçosos.
A
certa altura, estavam bem distraídos caçando sombra de avião quando se
depararam com uma fera na beira da trilha. O nome da fera era Bia e ela era a dona
daquela vereda.
A
fera encarou o ser vivo no além dos olhos, grudou-lhe uma estrela na testa e,
sem falar palavra, a Bia lhe sorriu.
E
nessa hora, o burro sentiu toda a sede da estiagem evaporar sua saliva. O ser
vivo desceu do burro e foi com seu cantil buscar leite de jaca numa bica, para
seu mulo beber. O jumento bebeu do leite de jaca, soltou baixinho um atchim e acelerou
seu pocotar.
À
medida que seguiam pelos trilhos da locomotiva, na estrada do
futuro-do-lado-de-lá, a Bia ia espalhando uns presentes para o ser vivo
recolher: um jabuti, um papel, um alto-falante, um bambolê, uma ruga. Mas o
coraçãozão do ser vivo já não tinha mais espaço para guardar tantas coisas
queridas demais. O coração enorme até parecia que ia explodir!
Então
o ser vivo libertou as coisinhas que havia dentro de seu coraçãozão e
desprendeu todos os alfinetes. As coisas que serviam só para o nada, ele enterrou
a sete palmos e jogou por cima uma pá de cal. As coisinhas cristalizadas, ele lapidou
com ponta de diamante. As mais bonitas, ele guardou nas gavetas dali do coração.
Umas menores, assoprou igual dente-de-leão. E devolveu aos seus donos os mil
perdões que lhes devia.
Eis
que o coração do ser vivo reamoleceu e ficou leve, leve, levinho... até que coube
outra vez por dentro do peito.
Um
dia a Bia presenteou o ser vivo com um par de asas. Ele vestiu suas asas e mirou
o espelho. Como estava belo e como seus olhos brilhavam longe! E o ser vivo
quis voar.
O
espelho explicou ao ser vivo que para alçar vôo ele tinha de abrir a mão,
torcer o braço e dar de ombros para seu burro. Então o ser vivo guardou o burro
numa gaiola, pendurou-a dentro de seu coraçãozinho e cantou a música mais
bonita de todas para o animal ninar.
Satisfeito
e confiante, o espelho desatarraxou o umbigo do ser vivo, virou-o de costas e lhe
pregou um cu.
E
lá se foi o ser vivo todo lindo pela vida, empetecar as páginas brancas de seu
caderninho de artista.
Dizem
que desde aquela feita o ser vivo cuida de seu cu como uma onça cuida da cria.
E nunca, NUNCA se ouvira dizer que tenha se metido em alguma burrada.
Falam
também que seu jumento segue roncando deveras e que seu coração pulsa um
baticum bem ritmado. Soube-se que a estrela em sua testa finalmente se
acendeu. De certas pessoas não se tem
notícias.
E
o ser vivo inventou um anjo.
Livia
Mannini