Quaquaraquaquá
Para Nika
Sábado à noite, saio do Mundial munida de umas cervejas e apanho o Uber com uma amigona querida rumo à festa de aniversário leonino do Marcelo e da Simone, no Grajaú, cumprindo severamente as recomendações do convite: “venha a caráter”. Levei a sério. Talvez influenciada pela Terreirada Cearense de mais cedo, caprichei como pude na fantasia improvisada: rendas, cores, penduricalhos e o toque final com umas fitas laminadas no cabelo, para ficar bem claro que eu não costumo me vestir desse jeito todo dia não, viu Seu Doutor, mas hoje eu estou em estado de farra.
Vidro meio aberto, ventão no rosto, minha amiga ri dos fiozinhos luminosos que faziam barulho balançandinho. Rimos. Estávamos com a bobeira solta. Rimos de novo.
Aí ela me solta essa:
- Puxa, tanta coisa ruim acontecendo ultimamente, esse país nesse estado, as pessoas morando na rua, agora esse exército... não é uma ofensa se a gente se divertir um pouquinho? Será que a gente tem mesmo o direito de ser feliz desse jeito?
A festança foi sem-palavras. Evocamos os Erês. Dançamos, bebemos, cantamos, nos abraçamos e só não caímos na piscina porque o frio era lascado. Rimos mais ainda. Hoje vejo as fotos que geral publicou. Todos – todos! – com uma gargalhadona na testa e brilho nos olhos, que o flash estourado amplificou.
Então acho que encontrei a resposta para a pergunta da minha amiga.
Eles – os fascistas, os machistas, racistas, reacionários, homofóbicos, gordofóbicos, os “loucos por fobias”, os bolsonazis, os que corrompem e os corrompidos, os escrotos duma figa, os meu-umbiguistas, os filhos-da-putistas, os pela-minha-famílias, os que jogam pedra na Geni, os que atiram e os que mandam atirar, os que tiram, os que fecham escolas de artes, que calam boca de professor, que estraçalham direitos trabalhistas, os caga-regras, os blasés de plantão, os que pintam de cinza, os golpistas...– querem proibir nossa risada. Querem cercear nossa alegria, cimentar nosso jogo de cintura, eletrocutar nosso coração, arrancar nosso humanismo a fórceps.
Pois eles não passarão! Sabe por quê? Porque nossa resposta a essa canalha toda será uma imensa, prolongada, fantástica pirueta.
Sinto informar, minha amiga, mas a gente não tem mais o direito de ser feliz. Agora a gente tem a obrigação.
LM
(julho/2017)
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