segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Último pedido

Lembra do cãozinho que você me trouxe quando me conheceu? Pequenininho, cara de espanto e aquele rabinho sempre abanando.   
No começo eu juro que não queria aceitá-lo. Achei um absurdo da sua parte você me largar com aquela encrenca nos braços. Eu não te pedi esse presente de grego e todos os santos e todos os vizinhos sabem o quanto te xinguei por isto. Eu nunca me ajeitei com cachorros, nunca foi meu estilo. Medo!
Fui criando o animal daquele meu jeito estabanado, sem me dar conta do excesso de alimento e, quando percebi, o danado já estava maior que a caixinha que arranjei para ele dormir.
Tomou conta do espaço inteiro. Toda noite invadia meu quarto espalhando insônia nas minhas orações. Eu era obrigada a levantar de pijama, fumar um cigarrinho na varanda e esperar uma distração dele pra poder voltar pra cama quietinha. No dia seguinte, já ouvia seus latidos atrás da porta antes do despertador tocar. Almoçava metade do meu prato, o faminto, e ainda metia o focinho na minha sobremesa. Fera!
Para onde quer que eu fosse, a criatura ia junto. Ficava parado na porta do mercado com aquela cara boba, me procurando entre o vai-e-vem das sacolas. Nas noitadas em que eu tentava escapar escondida, o espertalhão pulava o muro e farejava a Lapa inteira até me encontrar. Se me pegasse de gracinhas com alguém, o ciumento duma figa começava a subir pelas minhas pernas destruindo qualquer possibilidade de beijo. Grudento!
Pois bem, dei o braço a torcer. Comprei uma bolinha de tênis. Eu jogava, ele apanhava. Jogava mais longe, ele disparava feito um rojão e voltava com a bolinha na boca. Jogava no mar, ele se atirava nas ondas e trazia de volta, nadando “cachorrinho”. Até no telhado subiu. Parceiro!
Há uns dois meses, domingão de sol, achei que havia chegado o momento de parar de fugir da sufocante presença daquele quadrúpede tonto. Encarei-o com coragem e decidi levá-lo para fazer uma trilha e tomar um banho de cachoeira comigo – afinal de contas, para que serve um cão imenso e irrequieto senão para uma aventura como essa?
Antes de sairmos de casa, porém, haveria para nós dois um desafio muito maior que qualquer penhasco que encontrássemos pelo caminho. Sabia perfeitamente que ele não estava acostumado com o que eu tinha preparado para ele, mas naquele momento seria necessário, pois até chegarmos ao local teríamos de atravessar uma cidade inteira, desviando de carros, motos, gente chata e outros perigos. Assim, não vi outra opção, para nossa segurança, senão uma pinicante, limitante, tenebrosa... coleira.  
Fracasso total. Não rolou banho de cachoeira, nem sorvete de morango, nem jogar e trazer bolinha, nem nada. A reação do animal foi franca. Já dá até para imaginar o tamanho da patada que levei no meio da testa, né? Pra completar, derrapei numa constrangedora escorregada da cadeira e estatelei de bunda no chão.
Doeu bunda, sangrou testa. Chorei. Lavei o arranhão com água e sabonete. Ardeu. Fez casquinha. Desinchou. E agora, graças a um tremendo poder de regeneração e aquele jogo de cintura que Deus me deu, estou aqui quase completamente boa. Já posso sentar sem almofadas e passou a vergonha da cara esborrachada.
Mas o cão... não. O cão mudou. Desde aquele dia, vem latindo cada vez menos. Não tem procurado pela bolinha. Não me atrapalha quando estou trabalhando. Passa o dia inteiro espremidinho na caixinha e não está se alimentado direito. Respira ofegante, com aqueles olhinhos amuados. Às vezes passo por ele, faço um carinho, tento animá-lo. Ele vem, obediente como sempre, rastejando até meu colo. Mas fica ali daquele jeito aninhado quase que por dó de mim. Por respeito, acabo devolvendo-lhe para a paz do seu cantinho. E os dias passam rápidos, acostumando-me a conviver sem culpas e sem esperanças com aquele coitadinho. Frágil!
Já tentei reerguê-lo com vários remédios. Parece que vai melhorar, os gemidos espaçam-se um pouco, mas depois de um tempinho, volta a ficar abatido. Sei que se a coisa continuar assim, meu companheirinho vai acabar sucumbindo a uma febre.
Minhas amigas sabem que aquele bicho foi importante para mim. Sabem que desde quando resolvi assumi-lo como MEU cão, minhas risadas voltaram a contagiar a turma toda. Meus resmungos quase cessaram e até minha paciência anda se manifestando nas conversas sobre qualquer bobagem, por aí. Minhas amigas me dão muitos conselhos e não se conformam como até agora eu, sempre tão durona, ainda não tive capacidade de fazer o que qualquer uma delas já teria feito. Mas não... não quero sacrificar esse meu cão.
Eu já tive outros bichos durante a vida. Já precisei me despedir de outros amiguinhos numa clínica veterinária. Mas com este, não sei por que, quero fazer diferente. Quero ficar sentada no chão ali do lado da caixinha até que ele emita seu último suspiro. Então vou fechar a caixinha e enterrá-lo no quintal de casa. Por cima, vou plantar amor-perfeito e margaridas. E vou guardar nossas fotos mais bonitas na gaveta da cômoda.
Justamente por isso, ontem deu na veneta de começar a abrir um espaço para quando o inevitável dia chegar. Comecei a mexer aqui e ali e encontrei umas coisas suas: um livro do João do Rio, aquela calça estampada que te emprestei para você ficar à vontade em casa e que você recusou categoricamente a vestir por achar ridícula e curta, um disco da Bethania e aquelas fotos maluquinhas do carnaval.
Foi então que, não sei se por causa do cheiro dessas memórias, da música ou do seu rosto fofo debaixo daquele seu chapéu esquisito, o bendito do cãozinho levantou, sacudiu a orelhinha, entrou no meu quarto sem eu chamar e me lambeu a bochecha.
Por isso te escrevo, querido. Desconfio que se você me ajudar, o cãozinho poderá se recuperar. Quem sabe dessa vez você encontra um tempinho e disposição para cuidar dele? Sim! Veja se encontra um espaço para ele na sua casa e na sua agenda apertada. Leve-o com você. Cuide dele, por favor. Aceite-o. Afinal, se não fosse por sua causa, hoje eu não teria cão, nem testa ralada, nem bunda dolorida e nem pêlos grudados nas roupas. Teria falado o triplo de bobagens com minhas amigas na Lapa e nenhum animal babão tropeçaria no cadarço do meu tênis, quando chego meio assim-assim em casa, com o dia amanhecendo.
Quero muito que você queira cuidar desse bicho por mim, nesse momento. Mas, por outro lado, só vou permitir que você o leve com você se prometer que vai fazê-lo com carinho sincero. Com verdade, em cada gesto. Com amor, com tesão.
Se você estiver pronto, não demore, meu amigo. Ele está indo embora e eu não posso mais impedi-lo.
Chama Paixão, o vira-latinha. Torço para que você o adote.  

L.M. (11/09/2017)

Um comentário:

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