Último pedido
Lembra do cãozinho que
você me trouxe quando me conheceu? Pequenininho, cara de espanto e aquele
rabinho sempre abanando.
No começo eu juro que
não queria aceitá-lo. Achei um absurdo da sua parte você me largar com aquela
encrenca nos braços. Eu não te pedi esse presente de grego e todos os santos e todos os vizinhos sabem o quanto te xinguei por isto. Eu nunca me ajeitei
com cachorros, nunca foi meu estilo. Medo!
Fui criando o animal daquele
meu jeito estabanado, sem me dar conta do excesso de alimento e, quando percebi,
o danado já estava maior que a caixinha que arranjei para ele dormir.
Tomou conta do espaço
inteiro. Toda noite invadia meu quarto espalhando insônia nas minhas orações. Eu
era obrigada a levantar de pijama, fumar um cigarrinho na varanda e esperar uma
distração dele pra poder voltar pra cama quietinha. No dia seguinte, já ouvia
seus latidos atrás da porta antes do despertador tocar. Almoçava metade do meu
prato, o faminto, e ainda metia o focinho na minha sobremesa. Fera!
Para onde quer que eu
fosse, a criatura ia junto. Ficava parado na porta do mercado com aquela cara
boba, me procurando entre o vai-e-vem das sacolas. Nas noitadas em que eu
tentava escapar escondida, o espertalhão pulava o muro e farejava a Lapa
inteira até me encontrar. Se me pegasse de gracinhas com alguém, o ciumento
duma figa começava a subir pelas minhas pernas destruindo qualquer possibilidade
de beijo. Grudento!
Pois bem, dei o braço
a torcer. Comprei uma bolinha de tênis. Eu jogava, ele apanhava. Jogava mais
longe, ele disparava feito um rojão e voltava com a bolinha na boca. Jogava no
mar, ele se atirava nas ondas e trazia de volta, nadando “cachorrinho”. Até no
telhado subiu. Parceiro!
Há uns dois meses, domingão
de sol, achei que havia chegado o momento de parar de fugir da sufocante
presença daquele quadrúpede tonto. Encarei-o com coragem e decidi levá-lo para
fazer uma trilha e tomar um banho de cachoeira comigo – afinal de contas, para
que serve um cão imenso e irrequieto senão para uma aventura como essa?
Antes de sairmos de
casa, porém, haveria para nós dois um desafio muito maior que qualquer penhasco
que encontrássemos pelo caminho. Sabia perfeitamente que ele não estava
acostumado com o que eu tinha preparado para ele, mas naquele momento seria
necessário, pois até chegarmos ao local teríamos de atravessar uma cidade
inteira, desviando de carros, motos, gente chata e outros perigos. Assim, não
vi outra opção, para nossa segurança, senão uma pinicante, limitante,
tenebrosa... coleira.
Fracasso total. Não
rolou banho de cachoeira, nem sorvete de morango, nem jogar e trazer bolinha,
nem nada. A reação do animal foi franca. Já dá até para imaginar o tamanho da
patada que levei no meio da testa, né? Pra completar, derrapei numa constrangedora
escorregada da cadeira e estatelei de bunda no chão.
Doeu bunda, sangrou
testa. Chorei. Lavei o arranhão com água e sabonete. Ardeu. Fez casquinha. Desinchou.
E agora, graças a um tremendo poder de regeneração e aquele jogo de cintura que
Deus me deu, estou aqui quase completamente boa. Já posso sentar sem almofadas
e passou a vergonha da cara esborrachada.
Mas o cão... não. O
cão mudou. Desde aquele dia, vem latindo cada vez menos. Não tem procurado pela
bolinha. Não me atrapalha quando estou trabalhando. Passa o dia inteiro espremidinho
na caixinha e não está se alimentado direito. Respira ofegante, com aqueles
olhinhos amuados. Às vezes passo por ele, faço um carinho, tento animá-lo.
Ele vem, obediente como sempre, rastejando até meu colo. Mas fica ali daquele
jeito aninhado quase que por dó de mim. Por respeito, acabo devolvendo-lhe para
a paz do seu cantinho. E os dias passam rápidos, acostumando-me a conviver sem
culpas e sem esperanças com aquele coitadinho. Frágil!
Já tentei reerguê-lo
com vários remédios. Parece que vai melhorar, os gemidos espaçam-se um pouco, mas
depois de um tempinho, volta a ficar abatido. Sei que se a coisa continuar assim, meu
companheirinho vai acabar sucumbindo a uma febre.
Minhas amigas sabem que
aquele bicho foi importante para mim. Sabem que desde quando resolvi assumi-lo
como MEU cão, minhas risadas voltaram a contagiar a turma toda. Meus resmungos
quase cessaram e até minha paciência anda se manifestando nas conversas sobre
qualquer bobagem, por aí. Minhas amigas me dão muitos conselhos e não se
conformam como até agora eu, sempre tão durona, ainda não tive capacidade de fazer
o que qualquer uma delas já teria feito. Mas não... não quero sacrificar esse meu
cão.
Eu já tive outros bichos
durante a vida. Já precisei me despedir de outros amiguinhos numa clínica
veterinária. Mas com este, não sei por que, quero fazer diferente. Quero ficar sentada
no chão ali do lado da caixinha até que ele emita seu último suspiro. Então vou
fechar a caixinha e enterrá-lo no quintal de casa. Por cima, vou plantar
amor-perfeito e margaridas. E vou guardar nossas fotos mais bonitas na gaveta
da cômoda.
Justamente por isso,
ontem deu na veneta de começar a abrir um espaço para quando o inevitável dia
chegar. Comecei a mexer aqui e ali e encontrei umas coisas suas: um livro do
João do Rio, aquela calça estampada que te emprestei para você ficar à vontade
em casa e que você recusou categoricamente a vestir por achar ridícula e curta,
um disco da Bethania e aquelas fotos maluquinhas
do carnaval.
Foi então que, não sei
se por causa do cheiro dessas memórias, da música ou do seu rosto fofo debaixo
daquele seu chapéu esquisito, o bendito do cãozinho levantou, sacudiu a orelhinha,
entrou no meu quarto sem eu chamar e me lambeu a bochecha.
Por isso te escrevo,
querido. Desconfio que se você me ajudar, o cãozinho poderá se recuperar. Quem
sabe dessa vez você encontra um tempinho e disposição para cuidar dele? Sim!
Veja se encontra um espaço para ele na sua casa e na sua agenda apertada.
Leve-o com você. Cuide dele, por favor. Aceite-o. Afinal, se não fosse por sua
causa, hoje eu não teria cão, nem testa ralada, nem bunda dolorida e nem pêlos
grudados nas roupas. Teria falado o triplo de bobagens com minhas amigas na
Lapa e nenhum animal babão tropeçaria no cadarço do meu tênis, quando chego
meio assim-assim em casa, com o dia amanhecendo.
Quero muito que você queira
cuidar desse bicho por mim, nesse momento. Mas, por outro lado, só vou permitir
que você o leve com você se prometer que vai fazê-lo com carinho
sincero. Com verdade, em cada gesto. Com amor, com tesão.
Se você estiver
pronto, não demore, meu amigo. Ele está indo embora e eu não posso mais
impedi-lo.
Chama Paixão, o vira-latinha.
Torço para que você o adote.
L.M. (11/09/2017)
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