Festa de aniversário de
uma boa colega de trabalho. Reuniãozinha dessas dentro de apartamento, que não
podem passar das 22h. Então eu fui.
Ambiente de rodinhas de
pessoas mui educadas. Rapazes de um lado, em suas camisas de botão, discutindo
o futebol, o modelo do carro e o resort master-blaster onde passar uma semana
com a esposa, depois da reconciliação. Garotas do outro, tricotando os assuntos
mais relevantes da semana, como o preço da drenagem linfática, o
anticoncepcional que não engorda, o fora que alguma conhecida ausente tomou do
namorado, o chefe gato, o método Waldorf e outros temas que mulheres casadas
conversam desde os tempos de Eva.
Cheguei um pouco atrasada,
mas devidamente munida de alguma bebida, conforme ordenava o convite. Improvisara
uma cachacinha mineira das boas que, embora tenha me custado uns bons níqueis
no empório já quase baixando as portas no trajeto daquele sábado, terminaria
fechadinha sobre a mesa, atrás das garrafas vazias dos châteaus.
Como me é de costume, dei
aquelas tropeçadas nos cumprimentos iniciais, procurando tecer uns e outros
comentários engraçados na tentativa de entrar no clima, dizendo algo do tipo “faz
tempo que não ouço Marisa Monte” sobre a música que tocava no Spotify e coisa e
tals. Performance fraquinha. Contudo, durante trinta tensos minutos, a bandeja
com canoinhas de salmão defumado me foi oferecida duas vezes.
Senti meu humor azedando,
mas minha solicitude bradou mais alto e fui à cozinha dar uma força para a
aniversariante, atarantada com uns pães de queijo de própria autoria esquecidos
no forno, que não desgrudavam nunca mais da assadeira. Lavei alguns copos e
talheres e já estava mesmo disposta a amarrar um avental, quando duas pequenas
criaturas me salvam da maçada:
- Tia, me dá guaraná?
Não vacilei: puxei papo! Eram
dois bibelozinhos de 4 e 6 anos, com uns olhinhos desconfiados. Esforcei-me em
não parecer falsa naquela minha prestatividade e enchi dois copinhos de
plástico faltando um dedo para a boca. Obviamente, tomei o cuidado de sair do campo
de visão da mãe, que lá na sala, esparramada no sofá, contava com detalhes
sobre a contusão que sofrera durante uma aula de Pilates para uma outra
convidada que restringia-se em balançar o queixo em sinal de negativo,
demonstrando sincera perplexidade.
Olhinhos me encararam.
Ganhei um sorriso da maior, que decodificou perfeitamente a senha secreta. Zás!
Engoli o resto da taça de vinho e deixei a dupla me conduzir, sob o pretexto de
transportar o copo para menor, “senão o guaraná pode fazer sujeira no tapete branquinho
do corredor”.
Chegamos no quarto cor-de-rosa
da prima mais nova. A mais velha, com a propriedade de quem conheceu os avós antes,
explicava-me o significado das roupinhas de todas as bonecas, tim-tim por
tim-tim. A menor, sentadinha com as pernas para trás, tentava pentear o cabelo
de uma de suas filhas com um pente de plástico inapropriado para o nylon
emaranhado, o que lhe garantia alguns solavancos com sua mãozinha direita no
nariz, de vez em quando.
Bocejei numa
espreguiçadela, arranquei os saltos e me larguei no puff de estampas inspiradas
em quadros do Romero Britto com o firme propósito de não me levantar dali até o
toque de parabéns-a-você, para então me encaixar de olhos fechados na selfie, dar um beijo com aroma de
salgadinho frito no rosto de minha colega e me mandar.
A maiorzinha, porém, com a
tagarelice herdada da mãe, desafiava-me a concentração decidindo com a priminha
quem seria quem na brincadeira. Outorgando poderes de Ariel à pequena sereia,
eis que Pocahontas me lança essa:
- E você é quem, tia?
Pergunta complexa. Branca
de Neve? Não, não cairia na cilada de aceitar maçãs de estranhos. Cinderela?
Jamais faria tanto esforço para comparecer a uma balada tão “coxinha”. Bela
Adormecida? Humm, até que seria uma boa, se elas me deixassem tirar uma
soneca... mas, espera...
Meu quarto na Rua do Sacramento. O berço com mosqueteiro para a maninha ainda bebê, minha caminha
encostada na parede, o uniforme da pré-escola, com dois esquilinhos no
logotipo. O baú de brinquedos. Os bonecos preferidos sobre o travesseiro. Feijãozinho.
Feijãozinho era um boneco
com cabeça de borracha e roupinha de feltro. Todo fofinho, dava muita vontade
de apertá-lo. Era de uma fábrica de brinquedos que lançou uns bonecos que
tinham todos a mesma cara, só mudavam de roupa. Da mesma linha, eu também tinha
a Farofinha. Nas minhas brincadeiras, Farofinha e Feijãozinho eram irmãos. Eu
me dava muito bem com a Farofinha, mas gostava mesmo era do irmãozinho dela.
Da mesma fábrica, só que
de uma outra coleção, tinha a Emília, personagem do Sítio do Pica-Pau Amarelo.
Mas eu não ligava muito para ela, porque nunca conseguia encaixá-la nas
brincadeiras. Não cabia Emília nos assuntos das Barbies. Com ursos e coelhos
também não dava certo, porque Emília era gente e bicho era bicho. Aluna ela
também não podia ser, porque ela já sabia de um monte de coisas que eu nem
sabia que não sabia. Mamãe também não, porque ela era criança. Então ela ficava
ali enfeitando o quarto, vendo a gente brincar.
Quer ver eu ter chiliques era uma tia que freqüentava muito minha casa chamar a Emília de “tadinha” e me pedir para eu brincar com ela também. Não sei por que, mas aquele pedido não me descia a goela. Emburrava! Juntava logo todas as panelinhas, derramava as comidinhas e guardava os brinquedos com raiva no baú.
Quer ver eu ter chiliques era uma tia que freqüentava muito minha casa chamar a Emília de “tadinha” e me pedir para eu brincar com ela também. Não sei por que, mas aquele pedido não me descia a goela. Emburrava! Juntava logo todas as panelinhas, derramava as comidinhas e guardava os brinquedos com raiva no baú.
O travesseiro. Eu tinha
direito de escolher um brinquedo para dormir comigo, todas as noites. Eu sempre
escolhia o Feijãozinho. Não tinha negociação, era ele ou birra. Mas demorava a pegar
no sono.
Mal minha mãe saía do
quarto depois do dorme-com-Deus, minhas tertúlias com Feijãozinho começavam. A
gente falava em pensamento, para não acordar minha irmãzinha. E a gente falava
muito. Ele contava pra mim que não gostava das outras bonecas, porque eram
bobas. Exceto a Emília, que não era boba, mas era esquisita. Eu também contava
para ele que não gostava dos amiguinhos da escola, porque eles riam de mim na
hora do pega-pega. Eu perguntava para ele se era verdade que eu era feia e ele me
dava beijo na bochecha porque me achava linda. Eu colocava o Feijãozinho na
minha barriga, debaixo do pijama, pra ele dormir no quentinho, só que ele
queria ficar dentro da calcinha. Eu deixava um pouquinho, mas tinha medo que
minha mãe entrasse no quarto e descobrisse que a gente ainda estava
conversando. Mas quando eu ouvia minha mãe brigar com meu pai, sabia que ela
não iria entrar naquela hora. Então eu deixava. E ele ficava ali um tempão até
me fazer “negocinho”. Era o nome que a gente tinha dado para aquilo que nós
dois inventamos. Às vezes, quando terminava, o Feijãozinho ficava molhado e eu
nunca sabia o que fazer com ele daquele jeito. Então eu esfregava o Feijãozinho
na parede até secar.
Não sei se de tanto
esfregar o pobre boneco na parede, o caso é que um dia o Feijãozinho furou e de
dentro dele começaram a vazar umas bolinhas de isopor. Minha mãe bem que
remendou muitas vezes o Feijãozinho para mim, mas a cada semana ele ganhava um
buraquinho novo, até que sua cabeça de borracha finalmente caiu. Um dia,
cheguei da escolinha e não o encontrei. Minha mãe contou que ele e mais umas
duas bonecas esfarrapadas tinham ido morar no Mundo da Lua.
Feijãozinho me abandonou
assim, sem maiores explicações. Eu tinha cinco anos de idade e essa foi minha
primeira desilusão amorosa. E por causa do Feijãozinho, durante muito tempo
acreditei que garotos têm cabeça oca de borracha, coração de isopor e que um
dia dão defeito e vão embora com outras bonecas.
- Tia? Tiaaa?
Voltei para o puff com a
resposta.
- Eu sou a Emília.
L. M. (primavera/ 2017)
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