A MENINA QUE NÃO COME
Eu cheguei com tanta fome
Não dava para agüentar
Abri logo a geladeira
Pra ver o que ia arranjar
Mas lá dentro: só espaço
Alimento estava escasso
E eu querendo almoçar
Comecei fuçar o armário
Procurando o que comer
Vira, remexe, abre e fecha
Só um pão a apodrecer
Minha barriga vazia
Àquela hora tardia
Começava a retorcer
Tive então mais uma idéia:
- Vou pedir para a vizinha,
Que nunca negou ajuda,
algo de sua cozinha:
um biscoito ou um café,
ou pode ser um chiclé,
aceito qualquer coisinha
A vizinha respondeu
Que também não tinha nada
Ela, tanto quanto eu,
Estava toda estrepada
Porque o marido pedia
Pra fazer economia
Comendo só farinhada.
Voltei pra casa de novo
Imaginando este fato:
Arroz, feijão pão com ovo,
Chuchu, churrasco de gato,
Quiabo cozido com alho
Tapioca, queijo coalho
Misturado no meu prato
Para não ficar maluca,
Doida de pedra, pinel,
Resolvi pegar um lápis,
Uma borracha, papel
E pro tempo passar, homem
Enganei a minha fome
Escrevendo este Cordel.
Foi uma história comprida
Já me faltava elemento
Pra compor estas setilhas
Falando com sentimento
E até uns versos menores
Ficariam muito melhores
Se eu tivesse alimento
Mas não fugi da peleja
Desembestei a escrever
Peitei a fome de frente
Pra ver quem iria vencer
A mente que raciocina,
Pega as palavras, combina
Ou a vontade de comer
Cada hora que a barriga
Doía por dentro, gemia
Eu lembrava uma palavra
Que no papel escrevia
A fome apertava tanto
Fui reparar com espanto
Que até as letras comia
Primeiro engoli um “A”
Que tem na água de beber
No arroz, na alface, na amora
Que é fruta boa de lamber
E sem prestar atenção
Com tanta salivação
Mastiguei a letra “B”
Depois eu comi um “C”
Cebola que faz arder
Cominho, cuscuz com coentro
Cana dura de morder
Estava tão distraída
Virando letra em comida
Que engoli a letra “D”.
Em seguida foi um “E”
Letrinha mais mequetrefe!
Como ainda tinha fome
Sem pensar comi um “F”
Farofa, fava, feijão
Comi uma letra então
Que desta estrofe foi chefe
Engraçado foi um “G”
Grudando em todo lugar
Na língua, goto e garganta
Difícil de mastigar
Outra tinha gosto bom
Mas como não tinha som
Engasguei! Era um “H”
Comi um “I” inteirinho
Desde o cabinho à bolota
E de tanta indecisão
Pensando “Bota ou não bota?”
Escrevi “jiló” com “gi”
“Gibóia”, “gejum” e fugi
Digerindo a letra “J”
Meu estômago roncava
Minha mão num treme-treme
Comecei a escrever rápido
Contando do geme-geme
Ao rimar com mais vigor
Esqueci-me até de pôr
Mais um “L”, um “N” e um “M”.
Acelerando o compasso
Engoli nem sei por que
Três letras em um só verso
Pensando “Comer o quê?”
E ficou muito esquisito
Aquilo que tinha escrito
Sem um “O”, um “P” e um “Q”.
Existe pouco alimento
Que nasce no solo agreste
Pensando por um momento
Parei pra fazer um teste
Se todo mundo soubesse...
Engoli “T”, “R” e o “S”
Tentando escrever Nordeste.
De tanto que eu comi letra
Nestes versos que aqui fiz
Esta história ficou torta
Com as rimas por um triz
Mas prossegui escrevendo
Quando vi estava comendo
As letras “U”, “V” mais “X”.
Já um pouco aborrecida
Sem saber o que fazer
Sem palavra, nem comida
Nem mais nada pra dizer
Foi talvez por desespero
Ou por falta de esmero
Que também comi um “Z”.
Então eu disse “Já chega”
Mesmo morrendo de fome
Terminei este Cordel
Que precisava de nome
Só pensava em alimento
Mas chegou no pensamento
“A menina que não come”
Literatura é a arte
Inventada por prazer
Verdades pode conter
Imitar também faz parte
A vida é quem vai dizer.
(2004)
livia..livia..livia...qto tempo..rsrsrsr
ResponderExcluirAdorei suas crônicas....
agora quero ver se sua memoria é boa : vc lembra de mim ??? kkkkkk
Te adicionei no face... da uma olhada!
bjos