Dia-a-dia, post-a-post...
Pantera
Dependente confessa de cafeína, abro o armário da dispensa logo
cedo procurando meu pozinho mágico e dou de cara com uma aranha balançando uma
teia nova, cruzando o vazio de lado a lado. Tentei pegar no tranco...
Respondi rabugenta a uns e-mails aqui, uma mensagem de WhatsApp acolá, mas
minha concentração estava realmente pifante.
Com a determinação e energia de uma esponja-do-mar, enfiei-me na primeira
vestimenta que puxei do cabide, prendi um rabo de
cavalo para disfarçar a tragédia capilar matutina e desci trôpega pela
escadaria do bairro de Fátima, ansiosa por chegar com o dedão do pé ileso ao
bar da esquina, debaixo de um vestido de malha cor-de-rosa – chock – com
listras pretas.
Aproveitaria a descida para pagar contas no caixa
eletrônico, recarregar celular e mais uns dois etcétereas pelo caminho.
Não sei se porque frio ou fraco, ou se porque a
reportagem na TV sobre sapatilhas femininas instigava uma soneca, o fato é que
o café-com-leite rapidinho no balcão não foi suficiente para despertar minhas
pálpebras direito. E isso eu bem pude comprovar ao tropeçar na bengala de uma
senhorinha que saía da agência bancária, quase provocando um boletim de
ocorrência.
Rendida, virei à esquerda e entrei no supermercado,
disposta a ser ligeira e não me deixar persuadir pelo silfos das prateleiras
insistentes em me lembrar que também precisava comprar leite, que acabou o
queijo ralado, que o vinho chileno está em promoção e que o sabão em pó só dá
para mais uma baciada.
Passei a meia-dúzia de coisinhas pelo caixa,
recarreguei o pré-pago – inclusive descobri que as operadoras de caixa que mais
efetuam recargas de celulares no mês ganham como premiação um dia de folga –
desvencilhei-me das sempre tão grudadas sacolas plásticas e pus-me a conferir o
recibo, desconfiada da facada.
Zás! O Extra dando um rolé de R$ 2,30 a mais no
quilo do arroz integral! Fui lá conversar com o gerente mui solícito, que
percebendo a barbárie das etiquetas invertidas, olhou compreensivo para minha
cara amassada e concordou em restituir-me os trocados.
- Meia passagem de metrô! – respondi, grata, com
uma piscadinha.
Saí dali rebolante, coluna ereta, queixo pra cima,
tentando não arquear os ombros com o peso das sacolas – aqui, bolsas.
Cruzo a rua, caminho 2 quadras e passo em frente ao
mesmo boteco do desjejum, que agora já reunia os habitués matinais: um senhor
com jornal em punho resmungando qualquer coisa sobre a prefeitura, o taxista e
um outro sujeito, caninha no bico às 10h, que ao me ver passar daquele jeito,
Empoderada da Silva, soltou com um sorrisinho malandro uma mistura de cantada
manjada com feedback sincero, como só os bêbados sabem fazer:
- Param-param, param,
param-param-param-param-param... pararam-pararam.
Entre pingas e pingados, cada um com seus vícios.
(16/05/2017)
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Intervalo pro almoço durante uma formação na Barra, pouco
depois de eu ter feito umas perguntas no auditório, com meu indisfarçável
sotaque que involuntariamente insiste em emitir aquele R retroflexo e acentuar
com força as paroxítonas.
Peço licença pra sentar-me à mesa com uns
participantes que ainda não conhecia. O colega me surpreende: "Paulista,
né? De São Bernardo do Campo, né?
" Orra, meeeeu! Como é que ele conseguiu
ser tão específico? Só me restou pedir o prato:
- Garrrrrçom , porrrr favorrrr, tem frango com polêêêênta?
(11/04/2017)
- Motorista, dirija com mais cuidado. O senhor está
sacolejando a gente. Precisa lembrar que está transportando pessoas. Sua
direção é muito perigosa! - disse uma voz trêmula no fundo do ônibus
extraordinariamente vazio, a caminho da praça XV.
- Minha senhora, reclame com a prefeitura e peça para
tamparem esses buracos da rua. E a senhora pode ir sentadinha aí que não vai
acontecer nada. Por que está em pé?...
E iniciou-se o bate-boca. Outra mulher se solidarizou com a
senhorinha e engrossou o caldo:
- Nós pagamos o seu salário!
Aí a senhorinha manda essa:
- Pode abrir, vou descer aqui.
Motorista no contra-ataque:
- Aqui não é ponto, minha senhora.
Pense numa senhorinha indignada.
Tentei abstrair, mas não consegui:
- Dá licença de meter meu bedelho. A senhora está certa, o
motorista está dirigindo muito mal, mesmo. Mas ele também tem razão, porque não
pode parar fora do ponto.
Plaft, ploft, pum....paw, pow, pumba pra cima de mim.
Ri feliz, por dentro, enquanto ambas as partes, agora de
acordo, resmungavam abaixando a voz adjetivos como "intrometida",
"abusada" etc. etc..
Ai, ai... Tão fácil desagradar a gregos e troianos...
(20/03/2017)
Desço do Troncal 2 em
Ipanema, ajeito a mochila pra pegar o celular, cadê? Bolso aberto por mãos
experientemente leves. Fiquei puta. Corri pra frente do busão, fiz o motorista
parar, entrei e mandei com cara séria:
- Pessoal, é o seguinte: meu celular está dentro deste
ônibus. Então, por favor, quem tiver encontrado joga no chão e está tudo certo.
Eu dependo dele pra trabalhar. Pode ser?
Virei pro lado pra pessoa não ter o constrangimento de ser
identificada. 15 segundos e um burburinho lá no fundo:
"achou, aqui, aqui".
Recuperei o aparelho finalizando com um
sermãozinho, olhando pra geral:
- Valeu, maluco. Mas vê se pensa melhor pra saber
se vale a pena fazer essas merdas na vida.
Dia de sorte. Ultimamente o jeito é chamar o
ladrão, mesmo.
(19/02/2017)
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Sexta-feira, fim de expediente, já vou logo avisando: se me
der na telha, amarro meu turbante vermelho, penduro o crucifixo por dentro do
bojo, jogo katchup na pamonha, trago umas tequilas, me agarro com Iansã, pinto
a cara com urucum e rodo uma saia indiana entoando marchinhas politicamente
incorretas com meus amigos gays no forrobodó lá da esquina. Depois curo minha
overdose antropofágica com do-in e chá de boldo.
Porque cultura na pimenta dos
outros é bom e eu gosto.
(17/02/2017)
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