quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Dia-a-dia, post-a-post...


Pantera
Dependente confessa de cafeína, abro o armário da dispensa logo cedo procurando meu pozinho mágico e dou de cara com uma aranha balançando uma teia nova, cruzando o vazio de lado a lado. Tentei pegar no tranco... 
Respondi rabugenta a uns e-mails aqui, uma mensagem de WhatsApp acolá, mas minha concentração estava realmente pifante.
Com a determinação e energia de uma esponja-do-mar, enfiei-me na primeira vestimenta que puxei do cabide, prendi um rabo de cavalo para disfarçar a tragédia capilar matutina e desci trôpega pela escadaria do bairro de Fátima, ansiosa por chegar com o dedão do pé ileso ao bar da esquina, debaixo de um vestido de malha cor-de-rosa – chock – com listras pretas. 

Aproveitaria a descida para pagar contas no caixa eletrônico, recarregar celular e mais uns dois etcétereas pelo caminho. 
Não sei se porque frio ou fraco, ou se porque a reportagem na TV sobre sapatilhas femininas instigava uma soneca, o fato é que o café-com-leite rapidinho no balcão não foi suficiente para despertar minhas pálpebras direito. E isso eu bem pude comprovar ao tropeçar na bengala de uma senhorinha que saía da agência bancária, quase provocando um boletim de ocorrência. 
Rendida, virei à esquerda e entrei no supermercado, disposta a ser ligeira e não me deixar persuadir pelo silfos das prateleiras insistentes em me lembrar que também precisava comprar leite, que acabou o queijo ralado, que o vinho chileno está em promoção e que o sabão em pó só dá para mais uma baciada.
Passei a meia-dúzia de coisinhas pelo caixa, recarreguei o pré-pago – inclusive descobri que as operadoras de caixa que mais efetuam recargas de celulares no mês ganham como premiação um dia de folga – desvencilhei-me das sempre tão grudadas sacolas plásticas e pus-me a conferir o recibo, desconfiada da facada. 
Zás! O Extra dando um rolé de R$ 2,30 a mais no quilo do arroz integral! Fui lá conversar com o gerente mui solícito, que percebendo a barbárie das etiquetas invertidas, olhou compreensivo para minha cara amassada e concordou em restituir-me os trocados. 
- Meia passagem de metrô! – respondi, grata, com uma piscadinha.
Saí dali rebolante, coluna ereta, queixo pra cima, tentando não arquear os ombros com o peso das sacolas – aqui, bolsas. 
Cruzo a rua, caminho 2 quadras e passo em frente ao mesmo boteco do desjejum, que agora já reunia os habitués matinais: um senhor com jornal em punho resmungando qualquer coisa sobre a prefeitura, o taxista e um outro sujeito, caninha no bico às 10h, que ao me ver passar daquele jeito, Empoderada da Silva, soltou com um sorrisinho malandro uma mistura de cantada manjada com feedback sincero, como só os bêbados sabem fazer:
- Param-param, param, param-param-param-param-param... pararam-pararam. 
Entre pingas e pingados, cada um com seus vícios.


(16/05/2017)

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Intervalo pro almoço durante uma formação na Barra, pouco depois de eu ter feito umas perguntas no auditório, com meu indisfarçável sotaque que involuntariamente insiste em emitir aquele R retroflexo e acentuar com força as paroxítonas. 
Peço licença pra sentar-me à mesa com uns participantes que ainda não conhecia. O colega me surpreende: "Paulista, né? De São Bernardo do Campo, né? 
" Orra, meeeeu! Como é que ele conseguiu ser tão específico? Só me restou pedir o prato:

- Garrrrrçom , porrrr favorrrr, tem frango com polêêêênta?

(11/04/2017)

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- Motorista, dirija com mais cuidado. O senhor está sacolejando a gente. Precisa lembrar que está transportando pessoas. Sua direção é muito perigosa! - disse uma voz trêmula no fundo do ônibus extraordinariamente vazio, a caminho da praça XV.
- Minha senhora, reclame com a prefeitura e peça para tamparem esses buracos da rua. E a senhora pode ir sentadinha aí que não vai acontecer nada. Por que está em pé?...
E iniciou-se o bate-boca. Outra mulher se solidarizou com a senhorinha e engrossou o caldo:
- Nós pagamos o seu salário!
Aí a senhorinha manda essa:
- Pode abrir, vou descer aqui.
Motorista no contra-ataque:
- Aqui não é ponto, minha senhora.
Pense numa senhorinha indignada.
Tentei abstrair, mas não consegui:
- Dá licença de meter meu bedelho. A senhora está certa, o motorista está dirigindo muito mal, mesmo. Mas ele também tem razão, porque não pode parar fora do ponto.
Plaft, ploft, pum....paw, pow, pumba pra cima de mim.
Ri feliz, por dentro, enquanto ambas as partes, agora de acordo, resmungavam abaixando a voz adjetivos como "intrometida", "abusada" etc. etc..
Ai, ai... Tão fácil desagradar a gregos e troianos...

(20/03/2017)

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Desço do Troncal 2 em Ipanema, ajeito a mochila pra pegar o celular, cadê? Bolso aberto por mãos experientemente leves. Fiquei puta. Corri pra frente do busão, fiz o motorista parar, entrei e mandei com cara séria:
- Pessoal, é o seguinte: meu celular está dentro deste ônibus. Então, por favor, quem tiver encontrado joga no chão e está tudo certo. Eu dependo dele pra trabalhar. Pode ser?
Virei pro lado pra pessoa não ter o constrangimento de ser identificada. 15 segundos e um burburinho lá no fundo: "achou, aqui, aqui".
Recuperei o aparelho finalizando com um sermãozinho, olhando pra geral: 
- Valeu, maluco. Mas vê se pensa melhor pra saber se vale a pena fazer essas merdas na vida. 
Dia de sorte. Ultimamente o jeito é chamar o ladrão, mesmo.


(19/02/2017)

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Sexta-feira, fim de expediente, já vou logo avisando: se me der na telha, amarro meu turbante vermelho, penduro o crucifixo por dentro do bojo, jogo katchup na pamonha, trago umas tequilas, me agarro com Iansã, pinto a cara com urucum e rodo uma saia indiana entoando marchinhas politicamente incorretas com meus amigos gays no forrobodó lá da esquina. Depois curo minha overdose antropofágica com do-in e chá de boldo. 
Porque cultura na pimenta dos outros é bom e eu gosto.

(17/02/2017)


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