sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Faz de conta

Festa de aniversário de uma boa colega de trabalho. Reuniãozinha dessas dentro de apartamento, que não podem passar das 22h. Então eu fui.
Ambiente de rodinhas de pessoas mui educadas. Rapazes de um lado, em suas camisas de botão, discutindo o futebol, o modelo do carro e o resort master-blaster onde passar uma semana com a esposa, depois da reconciliação. Garotas do outro, tricotando os assuntos mais relevantes da semana, como o preço da drenagem linfática, o anticoncepcional que não engorda, o fora que alguma conhecida ausente tomou do namorado, o chefe gato, o método Waldorf e outros temas que mulheres casadas conversam desde os tempos de Eva.
Cheguei um pouco atrasada, mas devidamente munida de alguma bebida, conforme ordenava o convite. Improvisara uma cachacinha mineira das boas que, embora tenha me custado uns bons níqueis no empório já quase baixando as portas no trajeto daquele sábado, terminaria fechadinha sobre a mesa, atrás das garrafas vazias dos châteaus
Como me é de costume, dei aquelas tropeçadas nos cumprimentos iniciais, procurando tecer uns e outros comentários engraçados na tentativa de entrar no clima, dizendo algo do tipo “faz tempo que não ouço Marisa Monte” sobre a música que tocava no Spotify e coisa e tals. Performance fraquinha. Contudo, durante trinta tensos minutos, a bandeja com canoinhas de salmão defumado me foi oferecida duas vezes.
Senti meu humor azedando, mas minha solicitude bradou mais alto e fui à cozinha dar uma força para a aniversariante, atarantada com uns pães de queijo de própria autoria esquecidos no forno, que não desgrudavam nunca mais da assadeira. Lavei alguns copos e talheres e já estava mesmo disposta a amarrar um avental, quando duas pequenas criaturas me salvam da maçada:
- Tia, me dá guaraná?
Não vacilei: puxei papo! Eram dois bibelozinhos de 4 e 6 anos, com uns olhinhos desconfiados. Esforcei-me em não parecer falsa naquela minha prestatividade e enchi dois copinhos de plástico faltando um dedo para a boca. Obviamente, tomei o cuidado de sair do campo de visão da mãe, que lá na sala, esparramada no sofá, contava com detalhes sobre a contusão que sofrera durante uma aula de Pilates para uma outra convidada que restringia-se em balançar o queixo em sinal de negativo, demonstrando sincera perplexidade.     
Olhinhos me encararam. Ganhei um sorriso da maior, que decodificou perfeitamente a senha secreta. Zás! Engoli o resto da taça de vinho e deixei a dupla me conduzir, sob o pretexto de transportar o copo para menor, “senão o guaraná pode fazer sujeira no tapete branquinho do corredor”.
Chegamos no quarto cor-de-rosa da prima mais nova. A mais velha, com a propriedade de quem conheceu os avós antes, explicava-me o significado das roupinhas de todas as bonecas, tim-tim por tim-tim. A menor, sentadinha com as pernas para trás, tentava pentear o cabelo de uma de suas filhas com um pente de plástico inapropriado para o nylon emaranhado, o que lhe garantia alguns solavancos com sua mãozinha direita no nariz, de vez em quando.
Bocejei numa espreguiçadela, arranquei os saltos e me larguei no puff de estampas inspiradas em quadros do Romero Britto com o firme propósito de não me levantar dali até o toque de parabéns-a-você, para então me encaixar de olhos fechados na selfie, dar um beijo com aroma de salgadinho frito no rosto de minha colega e me mandar.
A maiorzinha, porém, com a tagarelice herdada da mãe, desafiava-me a concentração decidindo com a priminha quem seria quem na brincadeira. Outorgando poderes de Ariel à pequena sereia, eis que Pocahontas me lança essa:
- E você é quem, tia?
Pergunta complexa. Branca de Neve? Não, não cairia na cilada de aceitar maçãs de estranhos. Cinderela? Jamais faria tanto esforço para comparecer a uma balada tão “coxinha”. Bela Adormecida? Humm, até que seria uma boa, se elas me deixassem tirar uma soneca... mas, espera...
Meu quarto na Rua do Sacramento. O berço com mosqueteiro para a maninha ainda bebê, minha caminha encostada na parede, o uniforme da pré-escola, com dois esquilinhos no logotipo. O baú de brinquedos. Os bonecos preferidos sobre o travesseiro. Feijãozinho.
Feijãozinho era um boneco com cabeça de borracha e roupinha de feltro. Todo fofinho, dava muita vontade de apertá-lo. Era de uma fábrica de brinquedos que lançou uns bonecos que tinham todos a mesma cara, só mudavam de roupa. Da mesma linha, eu também tinha a Farofinha. Nas minhas brincadeiras, Farofinha e Feijãozinho eram irmãos. Eu me dava muito bem com a Farofinha, mas gostava mesmo era do irmãozinho dela.
Da mesma fábrica, só que de uma outra coleção, tinha a Emília, personagem do Sítio do Pica-Pau Amarelo. Mas eu não ligava muito para ela, porque nunca conseguia encaixá-la nas brincadeiras. Não cabia Emília nos assuntos das Barbies. Com ursos e coelhos também não dava certo, porque Emília era gente e bicho era bicho. Aluna ela também não podia ser, porque ela já sabia de um monte de coisas que eu nem sabia que não sabia. Mamãe também não, porque ela era criança. Então ela ficava ali enfeitando o quarto, vendo a gente brincar. 
Quer ver eu ter chiliques era uma tia que freqüentava muito minha casa chamar a Emília de “tadinha” e me pedir para eu brincar com ela também. Não sei por que, mas aquele pedido não me descia a goela. Emburrava! Juntava logo todas as panelinhas, derramava as comidinhas e guardava os brinquedos com raiva no baú.
O travesseiro. Eu tinha direito de escolher um brinquedo para dormir comigo, todas as noites. Eu sempre escolhia o Feijãozinho. Não tinha negociação, era ele ou birra. Mas demorava a pegar no sono.
Mal minha mãe saía do quarto depois do dorme-com-Deus, minhas tertúlias com Feijãozinho começavam. A gente falava em pensamento, para não acordar minha irmãzinha. E a gente falava muito. Ele contava pra mim que não gostava das outras bonecas, porque eram bobas. Exceto a Emília, que não era boba, mas era esquisita. Eu também contava para ele que não gostava dos amiguinhos da escola, porque eles riam de mim na hora do pega-pega. Eu perguntava para ele se era verdade que eu era feia e ele me dava beijo na bochecha porque me achava linda. Eu colocava o Feijãozinho na minha barriga, debaixo do pijama, pra ele dormir no quentinho, só que ele queria ficar dentro da calcinha. Eu deixava um pouquinho, mas tinha medo que minha mãe entrasse no quarto e descobrisse que a gente ainda estava conversando. Mas quando eu ouvia minha mãe brigar com meu pai, sabia que ela não iria entrar naquela hora. Então eu deixava. E ele ficava ali um tempão até me fazer “negocinho”. Era o nome que a gente tinha dado para aquilo que nós dois inventamos. Às vezes, quando terminava, o Feijãozinho ficava molhado e eu nunca sabia o que fazer com ele daquele jeito. Então eu esfregava o Feijãozinho na parede até secar.
Não sei se de tanto esfregar o pobre boneco na parede, o caso é que um dia o Feijãozinho furou e de dentro dele começaram a vazar umas bolinhas de isopor. Minha mãe bem que remendou muitas vezes o Feijãozinho para mim, mas a cada semana ele ganhava um buraquinho novo, até que sua cabeça de borracha finalmente caiu. Um dia, cheguei da escolinha e não o encontrei. Minha mãe contou que ele e mais umas duas bonecas esfarrapadas tinham ido morar no Mundo da Lua.
Feijãozinho me abandonou assim, sem maiores explicações. Eu tinha cinco anos de idade e essa foi minha primeira desilusão amorosa. E por causa do Feijãozinho, durante muito tempo acreditei que garotos têm cabeça oca de borracha, coração de isopor e que um dia dão defeito e vão embora com outras bonecas.
- Tia? Tiaaa?
Voltei para o puff com a resposta.

- Eu sou a Emília.

 L. M. (primavera/ 2017)







quarta-feira, 27 de setembro de 2017

O Cético

- Oh, cigana, o que lês em minhas mãos?
- És menino e tens a’lma cristalina
Teu futuro, abrirás com pés no chão
Caminha, pois, sob a luz que o destina.

- Oh, cigana, o que vês em minhas mãos?
- És homem de coragem pequenina
Tens no peito orgulho cego e ilusão
Desperta, pois, e ilumina tua sina.

- Oh, cigana, o que fiz com minhas mãos?
Por que nelas não enxergo uma linha?
Ergui, pois, meu alto eu na escuridão?

- És já velho e teus ais não te adivinhas!
Construíste, pois, tua vida em solidão
Porque sobre tuas mãos negaste as minhas.⁠⁠⁠⁠


(Sonetinho diet... cortei os palavrões. Só por hoje!)

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Técnica do Número 2

Acabou. Chega. Zé fini!
Você está realmente convict@ de que não quer mais sofrer por causa daquela pessoa.
Você já cansou de pinimbar para provar isso ou aquilo. Não quer mais ficar verde de raiva por causa dos absurdos que ouviu, não quer guardar mágoas, não quer mais morrer de saudade e chegou à conclusão de que a relação realmente não tem mais jeito. Você está mal e quer sair dessa vibe e ficar legal, como você era antes de conhecer @ traste.  
Ótimo! Você está prestes a se livrar de uma vez por todas desse encosto.
Sinceridade na fala? Pense bem, porque depois que usar essa técnica, não tem retorno. Você vai voltar sozinh@ dessa experiência.
Estamos pront@s? Então vamos lá!

1. Assim que sentir aquela vontade de ir ao banheiro fazer “número 2”, vá munid@ de lápis, duas folhas de papel para escrever (além do papel higiênico, claro) e certifique-se de que ninguém vai interromper o ritual espancando a porta, perguntando se você vai demorar muito. Porque vai!

2. Sente-se no vaso. Relaxe. Respire profundamente pelo menos 3 vezes. Esvazie a mente. Não deixe que nenhum pensamento grude em seu cérebro. Se precisar, coloque um fundo musical baixinho... tem uns mantras bacaninhas no YouTube. Segure o bolo fecal. Não é o momento ainda.

3. Imagine seu organismo por dentro. Sinta o ar entrando e saindo dos pulmões. Sinta o seu coração batendo mais tranquilamente. Sinta seu pulso. Mexa nos cabelos, solte os ombros. Mentalize o sangue percorrendo suas veias, levando energia para os mais extremos cantos desse templo onde você mora chamado corpo.

4. Massageie sua barriga lentamente com movimentos circulares no sentido horário, em torno de seu umbigo. Converse com seu intestino. Peça sua colaboração para iniciar esse processo tão necessário, que mudará sua vida definitivamente.

5. Comece a emitir alguns sons. Invente uma melodia e cante um pouquinho, ao expirar o ar. Se não quiser inventar nada seu, porque pode não estar acostumad@ a cantarolar solitariamente no banheiro, pode usar o mantra “OM”, que é basicão, sagrado e ótimo pra tudo.

6. Agora você vai falar sozinh@. Diga rapidamente 26 vezes a palavra “obrigado” (ou “obrigada”... tá meio chato usar esse símbolo de arroba para unificar gêneros... a partir daqui vou usar a norma culta da língua, ok? Desculpem, migas.. outra hora a gente discute essas paradas e mobiliza um movimento pela reforma da Língua Portuguesa).

7. Agradeça à vida por tudo. Pode ser a Deus, ou à natureza, ou aos orixás... às deidades em que você acredita, se você não for ateu. Se for, agradeça ao algo ou alguém em que você deposita os créditos da invenção deste fenômeno da fecundação. Agradeça por esse corpo que carrega seu espírito. Agradeça aos seus ancestrais por terem lhe transmitido as bases de tudo o que você é, antes de instalar os “aplicativos” que você adquiriu durante a existência. Agradeça pela experiência de conviver com seus familiares. Seja grato pelos amigos que encontrou pelo caminho. E, finalmente, agradeça por ter conhecido AQUELA pessoa.

8. Mentalize a pessoa de quem você vai se libertar. Apanhe o lápis e os papéis de escrever. No papel número 1, comece a anotar todas as qualidades daquela pessoa. Todas as coisas que ela te ensinou. Todos os momentos que você quer guardar na gaveta de sua memória e que não irá feri-lo quando você se deparar com essas lembranças novamente. Seja humilde e sincero nessa hora. Lembre-se: você está cagando! Você não é melhor nem pior que aquela pessoa. Vocês dois tem no mínimo uma coisa em comum: vocês tem cu!

9. No papel número 2, anote todas as coisas ruins que a pessoa te levou a sentir, todas as bostas que ela te falou. Todas as merdas que ela faz, fez ou fazia, mas que agora nunca mais fará, pois em minutos você estará livre dela. Seja honesto: depois do item anterior, você já nem lembra de tanta coisa assim, não é? Normal... essa amnésia é bem-vinda.

10. Releia o que escreveu na folha número 2. Coisa por coisa, leia em voz alta iniciando a leitura com a expressão “(Nome da pessoa), eu te perdôo hoje e para sempre por...” e vá lendo a lista inteira. Se você conseguir, peça perdão a ela por algumas coisas que achar necessárias também.

11. Releia o que escreveu na folha número 1, do mesmo modo, introduzindo a expressão “(Nome da pessoa), eu te agradeço hoje e para sempre por...” e vá em frente! 

12. Mentalize aquele símbolo do Tao, sabe? Se não sabe, fique tranqüilo que vou colocar ali embaixo. Depois dá uma Googleada para entender melhor, mas o que interessa é que aquele desenho significa que a vida é cíclica. Que tudo se transforma. Que tudo que nasce, morre. Mas que “de tudo fica um pouco”, como diria Drummond. Essa é a lei que rege os planetas e as suas células. Tudo o que entra, sai! Essa pessoa entrou em sua vida e vocês fizeram o que puderam fazer juntas. Ela te ensinou um monte de coisas e certamente aprendeu outras tantas com você. Agora ela deve sair. Pense nisto, com gratidão.

13. Hora do bolo fecal. Aqui você vai precisar de uma certa concentração a mais. À medida que sentir o cocô se movimentando, comece a rasgar a folha número 2 com convicção, enquanto repete com vigor esse texto (ou mais ou menos isso, se você não conseguir decorar): “Assim como o ar que eu inspiro entra em meus pulmões, deixa O2 e sai carregando CO2 na expiração; assim como a água que eu bebo entra e me hidrata e depois sai eliminando toxinas através da urina; assim como este alimento abençoado que eu como entra, deixa as substâncias que me nutrem e sai eliminando aquilo que não me serve mais, essa pessoa sai de uma vez por todas de minha vida, de minhas costas, de meus ombros, de meus pensamentos, de meus olhos, de meus ouvidos, de minha pele, de minha boca, de meu nariz. Eu elimino a presença negativa dessa pessoa por todos os meus poros e orifícios. Eu devolvo ao universo essa pessoa e desejo que ela viva sua experiência na Terra cercada de amor e proteção. Eu solto no vento essa pessoa, porque a perdôo e lhe desejo o bem. Sou grata a essa pessoa por todas as coisas que ela me ensinou. Agora a liberto para que prossigamos separadamente em busca de novas aprendizagens”. E termine repetindo outras 26 vezes a palavra “obrigad@”.

14. Use o papel higiênico. Lave as mãos.

15. Levante-se calmamente. Olhe fixamente para seu cocô até conseguir enxergar o rosto da pessoa nele. Sinta seu corpo mais leve.

16. Puxe a descarga. Abaixe a tampa. E esqueça essa pessoa para sempre.

17. Guarde a folha número 1 para reler, sempre que precisar relembrar o ritual. Os pedacinhos da folha número 2, ainda que ecologicamente incorreto, você deve assoprar pela janela, dissolvendo na natureza todas as coisas ruins que ali estavam anotadas.

18. Olhe no espelho, experimente sorrir.

19.   Repita algumas vezes, olhando com carinho para sua imagem: “Prometo pra você que não te farei sofrer nunca mais!”

20.   Viva em paz! Haja corretamente, com tudo, com todos. Distribua perdões, cultive amor. Seja feliz! E não esqueça: você e todo mundo temos cu! 💗

Resultado de imagem para taoismo

L. M. (12/09/2017)

Último pedido

Lembra do cãozinho que você me trouxe quando me conheceu? Pequenininho, cara de espanto e aquele rabinho sempre abanando.   
No começo eu juro que não queria aceitá-lo. Achei um absurdo da sua parte você me largar com aquela encrenca nos braços. Eu não te pedi esse presente de grego e todos os santos e todos os vizinhos sabem o quanto te xinguei por isto. Eu nunca me ajeitei com cachorros, nunca foi meu estilo. Medo!
Fui criando o animal daquele meu jeito estabanado, sem me dar conta do excesso de alimento e, quando percebi, o danado já estava maior que a caixinha que arranjei para ele dormir.
Tomou conta do espaço inteiro. Toda noite invadia meu quarto espalhando insônia nas minhas orações. Eu era obrigada a levantar de pijama, fumar um cigarrinho na varanda e esperar uma distração dele pra poder voltar pra cama quietinha. No dia seguinte, já ouvia seus latidos atrás da porta antes do despertador tocar. Almoçava metade do meu prato, o faminto, e ainda metia o focinho na minha sobremesa. Fera!
Para onde quer que eu fosse, a criatura ia junto. Ficava parado na porta do mercado com aquela cara boba, me procurando entre o vai-e-vem das sacolas. Nas noitadas em que eu tentava escapar escondida, o espertalhão pulava o muro e farejava a Lapa inteira até me encontrar. Se me pegasse de gracinhas com alguém, o ciumento duma figa começava a subir pelas minhas pernas destruindo qualquer possibilidade de beijo. Grudento!
Pois bem, dei o braço a torcer. Comprei uma bolinha de tênis. Eu jogava, ele apanhava. Jogava mais longe, ele disparava feito um rojão e voltava com a bolinha na boca. Jogava no mar, ele se atirava nas ondas e trazia de volta, nadando “cachorrinho”. Até no telhado subiu. Parceiro!
Há uns dois meses, domingão de sol, achei que havia chegado o momento de parar de fugir da sufocante presença daquele quadrúpede tonto. Encarei-o com coragem e decidi levá-lo para fazer uma trilha e tomar um banho de cachoeira comigo – afinal de contas, para que serve um cão imenso e irrequieto senão para uma aventura como essa?
Antes de sairmos de casa, porém, haveria para nós dois um desafio muito maior que qualquer penhasco que encontrássemos pelo caminho. Sabia perfeitamente que ele não estava acostumado com o que eu tinha preparado para ele, mas naquele momento seria necessário, pois até chegarmos ao local teríamos de atravessar uma cidade inteira, desviando de carros, motos, gente chata e outros perigos. Assim, não vi outra opção, para nossa segurança, senão uma pinicante, limitante, tenebrosa... coleira.  
Fracasso total. Não rolou banho de cachoeira, nem sorvete de morango, nem jogar e trazer bolinha, nem nada. A reação do animal foi franca. Já dá até para imaginar o tamanho da patada que levei no meio da testa, né? Pra completar, derrapei numa constrangedora escorregada da cadeira e estatelei de bunda no chão.
Doeu bunda, sangrou testa. Chorei. Lavei o arranhão com água e sabonete. Ardeu. Fez casquinha. Desinchou. E agora, graças a um tremendo poder de regeneração e aquele jogo de cintura que Deus me deu, estou aqui quase completamente boa. Já posso sentar sem almofadas e passou a vergonha da cara esborrachada.
Mas o cão... não. O cão mudou. Desde aquele dia, vem latindo cada vez menos. Não tem procurado pela bolinha. Não me atrapalha quando estou trabalhando. Passa o dia inteiro espremidinho na caixinha e não está se alimentado direito. Respira ofegante, com aqueles olhinhos amuados. Às vezes passo por ele, faço um carinho, tento animá-lo. Ele vem, obediente como sempre, rastejando até meu colo. Mas fica ali daquele jeito aninhado quase que por dó de mim. Por respeito, acabo devolvendo-lhe para a paz do seu cantinho. E os dias passam rápidos, acostumando-me a conviver sem culpas e sem esperanças com aquele coitadinho. Frágil!
Já tentei reerguê-lo com vários remédios. Parece que vai melhorar, os gemidos espaçam-se um pouco, mas depois de um tempinho, volta a ficar abatido. Sei que se a coisa continuar assim, meu companheirinho vai acabar sucumbindo a uma febre.
Minhas amigas sabem que aquele bicho foi importante para mim. Sabem que desde quando resolvi assumi-lo como MEU cão, minhas risadas voltaram a contagiar a turma toda. Meus resmungos quase cessaram e até minha paciência anda se manifestando nas conversas sobre qualquer bobagem, por aí. Minhas amigas me dão muitos conselhos e não se conformam como até agora eu, sempre tão durona, ainda não tive capacidade de fazer o que qualquer uma delas já teria feito. Mas não... não quero sacrificar esse meu cão.
Eu já tive outros bichos durante a vida. Já precisei me despedir de outros amiguinhos numa clínica veterinária. Mas com este, não sei por que, quero fazer diferente. Quero ficar sentada no chão ali do lado da caixinha até que ele emita seu último suspiro. Então vou fechar a caixinha e enterrá-lo no quintal de casa. Por cima, vou plantar amor-perfeito e margaridas. E vou guardar nossas fotos mais bonitas na gaveta da cômoda.
Justamente por isso, ontem deu na veneta de começar a abrir um espaço para quando o inevitável dia chegar. Comecei a mexer aqui e ali e encontrei umas coisas suas: um livro do João do Rio, aquela calça estampada que te emprestei para você ficar à vontade em casa e que você recusou categoricamente a vestir por achar ridícula e curta, um disco da Bethania e aquelas fotos maluquinhas do carnaval.
Foi então que, não sei se por causa do cheiro dessas memórias, da música ou do seu rosto fofo debaixo daquele seu chapéu esquisito, o bendito do cãozinho levantou, sacudiu a orelhinha, entrou no meu quarto sem eu chamar e me lambeu a bochecha.
Por isso te escrevo, querido. Desconfio que se você me ajudar, o cãozinho poderá se recuperar. Quem sabe dessa vez você encontra um tempinho e disposição para cuidar dele? Sim! Veja se encontra um espaço para ele na sua casa e na sua agenda apertada. Leve-o com você. Cuide dele, por favor. Aceite-o. Afinal, se não fosse por sua causa, hoje eu não teria cão, nem testa ralada, nem bunda dolorida e nem pêlos grudados nas roupas. Teria falado o triplo de bobagens com minhas amigas na Lapa e nenhum animal babão tropeçaria no cadarço do meu tênis, quando chego meio assim-assim em casa, com o dia amanhecendo.
Quero muito que você queira cuidar desse bicho por mim, nesse momento. Mas, por outro lado, só vou permitir que você o leve com você se prometer que vai fazê-lo com carinho sincero. Com verdade, em cada gesto. Com amor, com tesão.
Se você estiver pronto, não demore, meu amigo. Ele está indo embora e eu não posso mais impedi-lo.
Chama Paixão, o vira-latinha. Torço para que você o adote.  

L.M. (11/09/2017)