domingo, 29 de outubro de 2017

Beijo roubado

Vermelho. No vestido floridinho de malha combinando com tênis, no batom meio cedo para aquele tom, no espírito à vontade e, inevitavelmente, no fundo do bolso. Parti com ares de livre, leve e solta para encontrar os camaradas na Praça da Harmonia e conferir os festejos que o Prata Preta e o Comuna que Pariu promoviam em comemoração aos 100 anos da Revolução Russa.
Cheguei no crepúsculo. Tarde quente. Roda de samba começando a pegar fogo, gente bonita reunida, um paquera (ainda se usa esse termo?) das antigas pintando no pedaço com uma cara que me pareceu mais linda do que da última vez que o vi, glicemia controlada, endorfina “nos trinques”. Meus pés já irrequietos começavam a acompanhar o toque do surdo, anunciando-me que essa baguncinha seria daquele jeito que eu gosto!
Ouvi uma voz angelical sussurrando-me baixinho a promessa que me fiz enquanto trancava a porta de casa: “hoje a campanha é ‘mico zero’, garota”. Recusei com convicção aos copos de cerveja gentilmente oferecidos pela rapaziada, explicando que, extraordinariamente, antes de escurecer só beberia água mineral. E quase fui antipática quando desfilei por eles com uma cumbuquinha comportada, cheia de caldo verde.
Olhei para o céu e a lua estava lá, alaranjada, me mandando um sorrisão gostoso. Uma já quase esquecida sensação deliciosa invadiu minha espinha dorsal e foi parar nos meus pulmões. A uma semana de comemorar mais uma primavera (e este, usa-se?) no grupo dos “enta”, saindo de uma bad amorosa com um hematoma do tamanho de uma chuteira e ainda roxinho na bunda, uns tríceps tristes e um “panceps” robusto me lembrando que de manhã não fui à academia porque Eparema não bastou para me ressuscitar, além de uma ninhada de preocupaçõezinhas piando na cachola, quem imaginaria que esse sábado seria capaz de me encontrar tão... feliz?
Então veio a noite com seu manto abençoado brindar à alegria do povo ocupando o espaço público por causa da poesia, da arte, da música, da festa. Um brinde aos folguedos! Um brinde à luta do trabalhador contra todas as formas seculares de opressão. Um brinde à liberdade de se ser quem se é, coisa da qual ninguém aqui vai abrir mão não, seu Doutor! Um brinde às ruas por onde passeia o João do Rio que há em todos nós. Um brinde à cultura popular brasileira. Um brinde aos orixás que nos protegem... salve a ibejada! Um brinde ao amor precioso que há de se dar apenas porque se quer e não custa nada. Outro brinde! Mais um! Um pouco mais de gelo na catuaba – Selvagem.
Há certa altura, seguindo os cabeções de Marx e Lênin em cortejo pela Gambôa, saco uma nota de vinte para comprar uma brahminha de um ambulante que empurrava um isopor pouco atrás de mim e que, provavelmente, acompanhara meus passos trôpegos já desde o começo da ladeira, próximo ao Sindicato dos Estivadores. Latão é seis!
Enquanto aguardava o troco, meu olhar já meio japonês viu o rosto risonho do jovem vendedor se aproximar do meu. Dei um passo pra trás, mas dois brações fortes envolveram-me a cintura e voltaram-me pra frente, apertando-me de encontro a um peito largo e agradavelmente suado. Feito Juliana com uma rosa e um sorvete na mão, fui girando, girando até quase perder o fôlego com aqueles lábios carnudos grudados por trinta segundos na minha boca. Um brinde aos inesperados e todas as suas surpresas!
Que me perdoem as amigas solteiras pela concorrência desleal, mas o caso é que definitivamente aconteceu de essa ser uma daquelas noites mágicas que me ocorrem de quando em nuca, em que os santos tramam alguma coisa lá no infinito, rabiscam um não sei quê no meu mapa astral e me escolhem entre tantas para receber umas graças e me presentear com uma luz radiante que a todos contagia. Um brinde a Virgem Maria! Olha que agora estou é a iluminar os caminhos dos perdidos, enternecer os corações dos duros, acalentar o choro dos sofridos, encorajar os punhos dos ofendidos, colorir as nuvens negras e – juro que não é de propósito – atrair alguns homens.  Mais um brinde de saideira, então, à falta de modéstia, porque a titia aqui está, ó: uma brasa, mora?
Domingão, secura na garganta, cabelos empastelados, olheira azul marinho na imagem do espelho, zumbido de trombetas desafinadas no ouvido, ergo-me das cinzas. Tiro meu cérebro do modo “economia de energia” e ponho-me a fazer umas contas, para ter uma noção de quanto é que essa divina farra me custou.
Sentindo a falta de uns trocados na carteira, começo a rebobinar o filme devagarzinho: barraca do caldo, água, catuaba, aqui dez, ali mais tanto – tô ferrada! – mais seis ali e... pausa! Cadê meu bendito troco? Lá estão catorze reais, iguais a confetes, esquecidinhos num branco total entre paralelepípedos, músculos ilusionistas, isopores e latões.
Vermelha! Eis a cor do nariz redondo desta palhaça que vos fala.
Uma dúvida, no entanto, ainda me aquece ao travesseiro: será que, em fevereiro, se eu der uma nota de cinqüenta, o malandro me enrola com um beijão de quarenta e quatro? 

Livia Mannini
(e ainda é só outubro/ 2017)

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Faz de conta

Festa de aniversário de uma boa colega de trabalho. Reuniãozinha dessas dentro de apartamento, que não podem passar das 22h. Então eu fui.
Ambiente de rodinhas de pessoas mui educadas. Rapazes de um lado, em suas camisas de botão, discutindo o futebol, o modelo do carro e o resort master-blaster onde passar uma semana com a esposa, depois da reconciliação. Garotas do outro, tricotando os assuntos mais relevantes da semana, como o preço da drenagem linfática, o anticoncepcional que não engorda, o fora que alguma conhecida ausente tomou do namorado, o chefe gato, o método Waldorf e outros temas que mulheres casadas conversam desde os tempos de Eva.
Cheguei um pouco atrasada, mas devidamente munida de alguma bebida, conforme ordenava o convite. Improvisara uma cachacinha mineira das boas que, embora tenha me custado uns bons níqueis no empório já quase baixando as portas no trajeto daquele sábado, terminaria fechadinha sobre a mesa, atrás das garrafas vazias dos châteaus
Como me é de costume, dei aquelas tropeçadas nos cumprimentos iniciais, procurando tecer uns e outros comentários engraçados na tentativa de entrar no clima, dizendo algo do tipo “faz tempo que não ouço Marisa Monte” sobre a música que tocava no Spotify e coisa e tals. Performance fraquinha. Contudo, durante trinta tensos minutos, a bandeja com canoinhas de salmão defumado me foi oferecida duas vezes.
Senti meu humor azedando, mas minha solicitude bradou mais alto e fui à cozinha dar uma força para a aniversariante, atarantada com uns pães de queijo de própria autoria esquecidos no forno, que não desgrudavam nunca mais da assadeira. Lavei alguns copos e talheres e já estava mesmo disposta a amarrar um avental, quando duas pequenas criaturas me salvam da maçada:
- Tia, me dá guaraná?
Não vacilei: puxei papo! Eram dois bibelozinhos de 4 e 6 anos, com uns olhinhos desconfiados. Esforcei-me em não parecer falsa naquela minha prestatividade e enchi dois copinhos de plástico faltando um dedo para a boca. Obviamente, tomei o cuidado de sair do campo de visão da mãe, que lá na sala, esparramada no sofá, contava com detalhes sobre a contusão que sofrera durante uma aula de Pilates para uma outra convidada que restringia-se em balançar o queixo em sinal de negativo, demonstrando sincera perplexidade.     
Olhinhos me encararam. Ganhei um sorriso da maior, que decodificou perfeitamente a senha secreta. Zás! Engoli o resto da taça de vinho e deixei a dupla me conduzir, sob o pretexto de transportar o copo para menor, “senão o guaraná pode fazer sujeira no tapete branquinho do corredor”.
Chegamos no quarto cor-de-rosa da prima mais nova. A mais velha, com a propriedade de quem conheceu os avós antes, explicava-me o significado das roupinhas de todas as bonecas, tim-tim por tim-tim. A menor, sentadinha com as pernas para trás, tentava pentear o cabelo de uma de suas filhas com um pente de plástico inapropriado para o nylon emaranhado, o que lhe garantia alguns solavancos com sua mãozinha direita no nariz, de vez em quando.
Bocejei numa espreguiçadela, arranquei os saltos e me larguei no puff de estampas inspiradas em quadros do Romero Britto com o firme propósito de não me levantar dali até o toque de parabéns-a-você, para então me encaixar de olhos fechados na selfie, dar um beijo com aroma de salgadinho frito no rosto de minha colega e me mandar.
A maiorzinha, porém, com a tagarelice herdada da mãe, desafiava-me a concentração decidindo com a priminha quem seria quem na brincadeira. Outorgando poderes de Ariel à pequena sereia, eis que Pocahontas me lança essa:
- E você é quem, tia?
Pergunta complexa. Branca de Neve? Não, não cairia na cilada de aceitar maçãs de estranhos. Cinderela? Jamais faria tanto esforço para comparecer a uma balada tão “coxinha”. Bela Adormecida? Humm, até que seria uma boa, se elas me deixassem tirar uma soneca... mas, espera...
Meu quarto na Rua do Sacramento. O berço com mosqueteiro para a maninha ainda bebê, minha caminha encostada na parede, o uniforme da pré-escola, com dois esquilinhos no logotipo. O baú de brinquedos. Os bonecos preferidos sobre o travesseiro. Feijãozinho.
Feijãozinho era um boneco com cabeça de borracha e roupinha de feltro. Todo fofinho, dava muita vontade de apertá-lo. Era de uma fábrica de brinquedos que lançou uns bonecos que tinham todos a mesma cara, só mudavam de roupa. Da mesma linha, eu também tinha a Farofinha. Nas minhas brincadeiras, Farofinha e Feijãozinho eram irmãos. Eu me dava muito bem com a Farofinha, mas gostava mesmo era do irmãozinho dela.
Da mesma fábrica, só que de uma outra coleção, tinha a Emília, personagem do Sítio do Pica-Pau Amarelo. Mas eu não ligava muito para ela, porque nunca conseguia encaixá-la nas brincadeiras. Não cabia Emília nos assuntos das Barbies. Com ursos e coelhos também não dava certo, porque Emília era gente e bicho era bicho. Aluna ela também não podia ser, porque ela já sabia de um monte de coisas que eu nem sabia que não sabia. Mamãe também não, porque ela era criança. Então ela ficava ali enfeitando o quarto, vendo a gente brincar. 
Quer ver eu ter chiliques era uma tia que freqüentava muito minha casa chamar a Emília de “tadinha” e me pedir para eu brincar com ela também. Não sei por que, mas aquele pedido não me descia a goela. Emburrava! Juntava logo todas as panelinhas, derramava as comidinhas e guardava os brinquedos com raiva no baú.
O travesseiro. Eu tinha direito de escolher um brinquedo para dormir comigo, todas as noites. Eu sempre escolhia o Feijãozinho. Não tinha negociação, era ele ou birra. Mas demorava a pegar no sono.
Mal minha mãe saía do quarto depois do dorme-com-Deus, minhas tertúlias com Feijãozinho começavam. A gente falava em pensamento, para não acordar minha irmãzinha. E a gente falava muito. Ele contava pra mim que não gostava das outras bonecas, porque eram bobas. Exceto a Emília, que não era boba, mas era esquisita. Eu também contava para ele que não gostava dos amiguinhos da escola, porque eles riam de mim na hora do pega-pega. Eu perguntava para ele se era verdade que eu era feia e ele me dava beijo na bochecha porque me achava linda. Eu colocava o Feijãozinho na minha barriga, debaixo do pijama, pra ele dormir no quentinho, só que ele queria ficar dentro da calcinha. Eu deixava um pouquinho, mas tinha medo que minha mãe entrasse no quarto e descobrisse que a gente ainda estava conversando. Mas quando eu ouvia minha mãe brigar com meu pai, sabia que ela não iria entrar naquela hora. Então eu deixava. E ele ficava ali um tempão até me fazer “negocinho”. Era o nome que a gente tinha dado para aquilo que nós dois inventamos. Às vezes, quando terminava, o Feijãozinho ficava molhado e eu nunca sabia o que fazer com ele daquele jeito. Então eu esfregava o Feijãozinho na parede até secar.
Não sei se de tanto esfregar o pobre boneco na parede, o caso é que um dia o Feijãozinho furou e de dentro dele começaram a vazar umas bolinhas de isopor. Minha mãe bem que remendou muitas vezes o Feijãozinho para mim, mas a cada semana ele ganhava um buraquinho novo, até que sua cabeça de borracha finalmente caiu. Um dia, cheguei da escolinha e não o encontrei. Minha mãe contou que ele e mais umas duas bonecas esfarrapadas tinham ido morar no Mundo da Lua.
Feijãozinho me abandonou assim, sem maiores explicações. Eu tinha cinco anos de idade e essa foi minha primeira desilusão amorosa. E por causa do Feijãozinho, durante muito tempo acreditei que garotos têm cabeça oca de borracha, coração de isopor e que um dia dão defeito e vão embora com outras bonecas.
- Tia? Tiaaa?
Voltei para o puff com a resposta.

- Eu sou a Emília.

 L. M. (primavera/ 2017)







quarta-feira, 27 de setembro de 2017

O Cético

- Oh, cigana, o que lês em minhas mãos?
- És menino e tens a’lma cristalina
Teu futuro, abrirás com pés no chão
Caminha, pois, sob a luz que o destina.

- Oh, cigana, o que vês em minhas mãos?
- És homem de coragem pequenina
Tens no peito orgulho cego e ilusão
Desperta, pois, e ilumina tua sina.

- Oh, cigana, o que fiz com minhas mãos?
Por que nelas não enxergo uma linha?
Ergui, pois, meu alto eu na escuridão?

- És já velho e teus ais não te adivinhas!
Construíste, pois, tua vida em solidão
Porque sobre tuas mãos negaste as minhas.⁠⁠⁠⁠


(Sonetinho diet... cortei os palavrões. Só por hoje!)

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Técnica do Número 2

Acabou. Chega. Zé fini!
Você está realmente convict@ de que não quer mais sofrer por causa daquela pessoa.
Você já cansou de pinimbar para provar isso ou aquilo. Não quer mais ficar verde de raiva por causa dos absurdos que ouviu, não quer guardar mágoas, não quer mais morrer de saudade e chegou à conclusão de que a relação realmente não tem mais jeito. Você está mal e quer sair dessa vibe e ficar legal, como você era antes de conhecer @ traste.  
Ótimo! Você está prestes a se livrar de uma vez por todas desse encosto.
Sinceridade na fala? Pense bem, porque depois que usar essa técnica, não tem retorno. Você vai voltar sozinh@ dessa experiência.
Estamos pront@s? Então vamos lá!

1. Assim que sentir aquela vontade de ir ao banheiro fazer “número 2”, vá munid@ de lápis, duas folhas de papel para escrever (além do papel higiênico, claro) e certifique-se de que ninguém vai interromper o ritual espancando a porta, perguntando se você vai demorar muito. Porque vai!

2. Sente-se no vaso. Relaxe. Respire profundamente pelo menos 3 vezes. Esvazie a mente. Não deixe que nenhum pensamento grude em seu cérebro. Se precisar, coloque um fundo musical baixinho... tem uns mantras bacaninhas no YouTube. Segure o bolo fecal. Não é o momento ainda.

3. Imagine seu organismo por dentro. Sinta o ar entrando e saindo dos pulmões. Sinta o seu coração batendo mais tranquilamente. Sinta seu pulso. Mexa nos cabelos, solte os ombros. Mentalize o sangue percorrendo suas veias, levando energia para os mais extremos cantos desse templo onde você mora chamado corpo.

4. Massageie sua barriga lentamente com movimentos circulares no sentido horário, em torno de seu umbigo. Converse com seu intestino. Peça sua colaboração para iniciar esse processo tão necessário, que mudará sua vida definitivamente.

5. Comece a emitir alguns sons. Invente uma melodia e cante um pouquinho, ao expirar o ar. Se não quiser inventar nada seu, porque pode não estar acostumad@ a cantarolar solitariamente no banheiro, pode usar o mantra “OM”, que é basicão, sagrado e ótimo pra tudo.

6. Agora você vai falar sozinh@. Diga rapidamente 26 vezes a palavra “obrigado” (ou “obrigada”... tá meio chato usar esse símbolo de arroba para unificar gêneros... a partir daqui vou usar a norma culta da língua, ok? Desculpem, migas.. outra hora a gente discute essas paradas e mobiliza um movimento pela reforma da Língua Portuguesa).

7. Agradeça à vida por tudo. Pode ser a Deus, ou à natureza, ou aos orixás... às deidades em que você acredita, se você não for ateu. Se for, agradeça ao algo ou alguém em que você deposita os créditos da invenção deste fenômeno da fecundação. Agradeça por esse corpo que carrega seu espírito. Agradeça aos seus ancestrais por terem lhe transmitido as bases de tudo o que você é, antes de instalar os “aplicativos” que você adquiriu durante a existência. Agradeça pela experiência de conviver com seus familiares. Seja grato pelos amigos que encontrou pelo caminho. E, finalmente, agradeça por ter conhecido AQUELA pessoa.

8. Mentalize a pessoa de quem você vai se libertar. Apanhe o lápis e os papéis de escrever. No papel número 1, comece a anotar todas as qualidades daquela pessoa. Todas as coisas que ela te ensinou. Todos os momentos que você quer guardar na gaveta de sua memória e que não irá feri-lo quando você se deparar com essas lembranças novamente. Seja humilde e sincero nessa hora. Lembre-se: você está cagando! Você não é melhor nem pior que aquela pessoa. Vocês dois tem no mínimo uma coisa em comum: vocês tem cu!

9. No papel número 2, anote todas as coisas ruins que a pessoa te levou a sentir, todas as bostas que ela te falou. Todas as merdas que ela faz, fez ou fazia, mas que agora nunca mais fará, pois em minutos você estará livre dela. Seja honesto: depois do item anterior, você já nem lembra de tanta coisa assim, não é? Normal... essa amnésia é bem-vinda.

10. Releia o que escreveu na folha número 2. Coisa por coisa, leia em voz alta iniciando a leitura com a expressão “(Nome da pessoa), eu te perdôo hoje e para sempre por...” e vá lendo a lista inteira. Se você conseguir, peça perdão a ela por algumas coisas que achar necessárias também.

11. Releia o que escreveu na folha número 1, do mesmo modo, introduzindo a expressão “(Nome da pessoa), eu te agradeço hoje e para sempre por...” e vá em frente! 

12. Mentalize aquele símbolo do Tao, sabe? Se não sabe, fique tranqüilo que vou colocar ali embaixo. Depois dá uma Googleada para entender melhor, mas o que interessa é que aquele desenho significa que a vida é cíclica. Que tudo se transforma. Que tudo que nasce, morre. Mas que “de tudo fica um pouco”, como diria Drummond. Essa é a lei que rege os planetas e as suas células. Tudo o que entra, sai! Essa pessoa entrou em sua vida e vocês fizeram o que puderam fazer juntas. Ela te ensinou um monte de coisas e certamente aprendeu outras tantas com você. Agora ela deve sair. Pense nisto, com gratidão.

13. Hora do bolo fecal. Aqui você vai precisar de uma certa concentração a mais. À medida que sentir o cocô se movimentando, comece a rasgar a folha número 2 com convicção, enquanto repete com vigor esse texto (ou mais ou menos isso, se você não conseguir decorar): “Assim como o ar que eu inspiro entra em meus pulmões, deixa O2 e sai carregando CO2 na expiração; assim como a água que eu bebo entra e me hidrata e depois sai eliminando toxinas através da urina; assim como este alimento abençoado que eu como entra, deixa as substâncias que me nutrem e sai eliminando aquilo que não me serve mais, essa pessoa sai de uma vez por todas de minha vida, de minhas costas, de meus ombros, de meus pensamentos, de meus olhos, de meus ouvidos, de minha pele, de minha boca, de meu nariz. Eu elimino a presença negativa dessa pessoa por todos os meus poros e orifícios. Eu devolvo ao universo essa pessoa e desejo que ela viva sua experiência na Terra cercada de amor e proteção. Eu solto no vento essa pessoa, porque a perdôo e lhe desejo o bem. Sou grata a essa pessoa por todas as coisas que ela me ensinou. Agora a liberto para que prossigamos separadamente em busca de novas aprendizagens”. E termine repetindo outras 26 vezes a palavra “obrigad@”.

14. Use o papel higiênico. Lave as mãos.

15. Levante-se calmamente. Olhe fixamente para seu cocô até conseguir enxergar o rosto da pessoa nele. Sinta seu corpo mais leve.

16. Puxe a descarga. Abaixe a tampa. E esqueça essa pessoa para sempre.

17. Guarde a folha número 1 para reler, sempre que precisar relembrar o ritual. Os pedacinhos da folha número 2, ainda que ecologicamente incorreto, você deve assoprar pela janela, dissolvendo na natureza todas as coisas ruins que ali estavam anotadas.

18. Olhe no espelho, experimente sorrir.

19.   Repita algumas vezes, olhando com carinho para sua imagem: “Prometo pra você que não te farei sofrer nunca mais!”

20.   Viva em paz! Haja corretamente, com tudo, com todos. Distribua perdões, cultive amor. Seja feliz! E não esqueça: você e todo mundo temos cu! 💗

Resultado de imagem para taoismo

L. M. (12/09/2017)

Último pedido

Lembra do cãozinho que você me trouxe quando me conheceu? Pequenininho, cara de espanto e aquele rabinho sempre abanando.   
No começo eu juro que não queria aceitá-lo. Achei um absurdo da sua parte você me largar com aquela encrenca nos braços. Eu não te pedi esse presente de grego e todos os santos e todos os vizinhos sabem o quanto te xinguei por isto. Eu nunca me ajeitei com cachorros, nunca foi meu estilo. Medo!
Fui criando o animal daquele meu jeito estabanado, sem me dar conta do excesso de alimento e, quando percebi, o danado já estava maior que a caixinha que arranjei para ele dormir.
Tomou conta do espaço inteiro. Toda noite invadia meu quarto espalhando insônia nas minhas orações. Eu era obrigada a levantar de pijama, fumar um cigarrinho na varanda e esperar uma distração dele pra poder voltar pra cama quietinha. No dia seguinte, já ouvia seus latidos atrás da porta antes do despertador tocar. Almoçava metade do meu prato, o faminto, e ainda metia o focinho na minha sobremesa. Fera!
Para onde quer que eu fosse, a criatura ia junto. Ficava parado na porta do mercado com aquela cara boba, me procurando entre o vai-e-vem das sacolas. Nas noitadas em que eu tentava escapar escondida, o espertalhão pulava o muro e farejava a Lapa inteira até me encontrar. Se me pegasse de gracinhas com alguém, o ciumento duma figa começava a subir pelas minhas pernas destruindo qualquer possibilidade de beijo. Grudento!
Pois bem, dei o braço a torcer. Comprei uma bolinha de tênis. Eu jogava, ele apanhava. Jogava mais longe, ele disparava feito um rojão e voltava com a bolinha na boca. Jogava no mar, ele se atirava nas ondas e trazia de volta, nadando “cachorrinho”. Até no telhado subiu. Parceiro!
Há uns dois meses, domingão de sol, achei que havia chegado o momento de parar de fugir da sufocante presença daquele quadrúpede tonto. Encarei-o com coragem e decidi levá-lo para fazer uma trilha e tomar um banho de cachoeira comigo – afinal de contas, para que serve um cão imenso e irrequieto senão para uma aventura como essa?
Antes de sairmos de casa, porém, haveria para nós dois um desafio muito maior que qualquer penhasco que encontrássemos pelo caminho. Sabia perfeitamente que ele não estava acostumado com o que eu tinha preparado para ele, mas naquele momento seria necessário, pois até chegarmos ao local teríamos de atravessar uma cidade inteira, desviando de carros, motos, gente chata e outros perigos. Assim, não vi outra opção, para nossa segurança, senão uma pinicante, limitante, tenebrosa... coleira.  
Fracasso total. Não rolou banho de cachoeira, nem sorvete de morango, nem jogar e trazer bolinha, nem nada. A reação do animal foi franca. Já dá até para imaginar o tamanho da patada que levei no meio da testa, né? Pra completar, derrapei numa constrangedora escorregada da cadeira e estatelei de bunda no chão.
Doeu bunda, sangrou testa. Chorei. Lavei o arranhão com água e sabonete. Ardeu. Fez casquinha. Desinchou. E agora, graças a um tremendo poder de regeneração e aquele jogo de cintura que Deus me deu, estou aqui quase completamente boa. Já posso sentar sem almofadas e passou a vergonha da cara esborrachada.
Mas o cão... não. O cão mudou. Desde aquele dia, vem latindo cada vez menos. Não tem procurado pela bolinha. Não me atrapalha quando estou trabalhando. Passa o dia inteiro espremidinho na caixinha e não está se alimentado direito. Respira ofegante, com aqueles olhinhos amuados. Às vezes passo por ele, faço um carinho, tento animá-lo. Ele vem, obediente como sempre, rastejando até meu colo. Mas fica ali daquele jeito aninhado quase que por dó de mim. Por respeito, acabo devolvendo-lhe para a paz do seu cantinho. E os dias passam rápidos, acostumando-me a conviver sem culpas e sem esperanças com aquele coitadinho. Frágil!
Já tentei reerguê-lo com vários remédios. Parece que vai melhorar, os gemidos espaçam-se um pouco, mas depois de um tempinho, volta a ficar abatido. Sei que se a coisa continuar assim, meu companheirinho vai acabar sucumbindo a uma febre.
Minhas amigas sabem que aquele bicho foi importante para mim. Sabem que desde quando resolvi assumi-lo como MEU cão, minhas risadas voltaram a contagiar a turma toda. Meus resmungos quase cessaram e até minha paciência anda se manifestando nas conversas sobre qualquer bobagem, por aí. Minhas amigas me dão muitos conselhos e não se conformam como até agora eu, sempre tão durona, ainda não tive capacidade de fazer o que qualquer uma delas já teria feito. Mas não... não quero sacrificar esse meu cão.
Eu já tive outros bichos durante a vida. Já precisei me despedir de outros amiguinhos numa clínica veterinária. Mas com este, não sei por que, quero fazer diferente. Quero ficar sentada no chão ali do lado da caixinha até que ele emita seu último suspiro. Então vou fechar a caixinha e enterrá-lo no quintal de casa. Por cima, vou plantar amor-perfeito e margaridas. E vou guardar nossas fotos mais bonitas na gaveta da cômoda.
Justamente por isso, ontem deu na veneta de começar a abrir um espaço para quando o inevitável dia chegar. Comecei a mexer aqui e ali e encontrei umas coisas suas: um livro do João do Rio, aquela calça estampada que te emprestei para você ficar à vontade em casa e que você recusou categoricamente a vestir por achar ridícula e curta, um disco da Bethania e aquelas fotos maluquinhas do carnaval.
Foi então que, não sei se por causa do cheiro dessas memórias, da música ou do seu rosto fofo debaixo daquele seu chapéu esquisito, o bendito do cãozinho levantou, sacudiu a orelhinha, entrou no meu quarto sem eu chamar e me lambeu a bochecha.
Por isso te escrevo, querido. Desconfio que se você me ajudar, o cãozinho poderá se recuperar. Quem sabe dessa vez você encontra um tempinho e disposição para cuidar dele? Sim! Veja se encontra um espaço para ele na sua casa e na sua agenda apertada. Leve-o com você. Cuide dele, por favor. Aceite-o. Afinal, se não fosse por sua causa, hoje eu não teria cão, nem testa ralada, nem bunda dolorida e nem pêlos grudados nas roupas. Teria falado o triplo de bobagens com minhas amigas na Lapa e nenhum animal babão tropeçaria no cadarço do meu tênis, quando chego meio assim-assim em casa, com o dia amanhecendo.
Quero muito que você queira cuidar desse bicho por mim, nesse momento. Mas, por outro lado, só vou permitir que você o leve com você se prometer que vai fazê-lo com carinho sincero. Com verdade, em cada gesto. Com amor, com tesão.
Se você estiver pronto, não demore, meu amigo. Ele está indo embora e eu não posso mais impedi-lo.
Chama Paixão, o vira-latinha. Torço para que você o adote.  

L.M. (11/09/2017)

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Quaquaraquaquá 
Para Nika 

Sábado à noite, saio do Mundial munida de umas cervejas e apanho o Uber com uma amigona querida rumo à festa de aniversário leonino do Marcelo e da Simone, no Grajaú, cumprindo severamente as recomendações do convite: “venha a caráter”. Levei a sério. Talvez influenciada pela Terreirada Cearense de mais cedo, caprichei como pude na fantasia improvisada: rendas, cores, penduricalhos e o toque final com umas fitas laminadas no cabelo, para ficar bem claro que eu não costumo me vestir desse jeito todo dia não, viu Seu Doutor, mas hoje eu estou em estado de farra.  

Vidro meio aberto, ventão no rosto, minha amiga ri dos fiozinhos luminosos que faziam barulho balançandinho. Rimos. Estávamos com a bobeira solta. Rimos de novo.  

Aí ela me solta essa:  

- Puxa, tanta coisa ruim acontecendo ultimamente, esse país nesse estado, as pessoas morando na rua, agora esse exército... não é uma ofensa se a gente se divertir um pouquinho? Será que a gente tem mesmo o direito de ser feliz desse jeito?  

A festança foi sem-palavras. Evocamos os Erês. Dançamos, bebemos, cantamos, nos abraçamos e só não caímos na piscina porque o frio era lascado. Rimos mais ainda.  Hoje vejo as fotos que geral publicou. Todos – todos! – com uma gargalhadona na testa e brilho nos olhos, que o flash estourado amplificou.

Então acho que encontrei a resposta para a pergunta da minha amiga.  

Eles – os fascistas, os machistas, racistas, reacionários, homofóbicos, gordofóbicos, os “loucos por fobias”, os bolsonazis, os que corrompem e os corrompidos, os escrotos duma figa, os meu-umbiguistas, os filhos-da-putistas,  os pela-minha-famílias, os que jogam pedra na Geni, os que atiram e os que mandam atirar, os que tiram, os que fecham escolas de artes, que calam boca de professor, que estraçalham direitos trabalhistas, os caga-regras, os blasés de plantão, os que pintam de cinza, os golpistas...– querem proibir nossa risada. Querem cercear nossa alegria, cimentar nosso jogo de cintura, eletrocutar nosso coração, arrancar nosso humanismo a fórceps.  

Pois eles não passarão! Sabe por quê? Porque nossa resposta a essa canalha toda será uma imensa, prolongada, fantástica pirueta.  

Sinto informar, minha amiga, mas a gente não tem mais o direito de ser feliz. Agora a gente tem a obrigação. 

LM
(julho/2017) 

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

 “Como é por dentro outra pessoa?
Quem é que o saberá sonhar?”
(Fernando Pessoa)

 “Então a moça abocanhou
o dedão do pé dele e engoliu.
 (Mário de Andrade)

“- Epa! Nomopadrofilhospritossantamêin!
Avança, cambada de filhos-da-mãe,
que chegou minha vez!... ”
(João Guimarães Rosa)



Fábula Para Endorfinar Amigo ou Conversinha Mole Pra Boi Dormir

Para XXXX

            Era uma vez um ser vivo que habitava o planeta Terra. Ele não sabia de onde viera e nem para onde iria. Nem ao certo sabia como havia chegado aqui. Como todo ser vivo que habita o planeta Terra...


           
           Aquele ser vivo tinha uma mania engraçada de gostar de viver!
          Gostava de sol, de lua, de rua, de miar no telhado. Gostava de cachorro, ornitorrinco, taturana e traquitana. De cheiro de livro novo, de chiado de disco, de poeira de giz impregnada no jeans. De tampinha de caneta e de nave espacial. De pão na chapa com manteiga derretida e de motorzinho de dentista. De valeta, de luneta...
         De tudo que ia gostando pelo caminho, o ser vivo arrancava um pedacinho e guardava no coração. Ele tinha um coração enorme, cabia muita coisinha lá dentro!

                
                    Exceto as pererecas.
            O ser vivo tinha um bico muito comprido e doce, que usava para encantar pererecas. Ah, como adorava as brincadeiras com as rãs! Gostava do cheiro, do gosto, do barulho, da textura de suas peles, da flacidez de suas carnes, do jeito tolinho que elas têm.
            Mas como não era de engolir sapos, quando a noite chegava e as pererecas coaxavam já meio ranzinzas de fome, o ser vivo devolvia para a natureza uma a uma as tadinhas que levava no bico e voltava sozinho para seu ninho, para jantar um baião de dois.


            O ser vivo também gostava muito de reparar. Tudo ao seu redor lhe parecia tão impressionante! O joelho torto da menina sardenta no ponto de ônibus e a aura colorida da preta velha que descia descalça a ladeira não escapavam despercebidos a seu par de antenas atentas. A sacola dourada do maluco e a moeda de cinco centavos perdida no meio-fio. A mosca na sopa de Raul, o pêlo no ovo da pata choca, o caroço da azeitona dentro do pastel de feira do japonês. O cisco no olho da sogra e o fio de cabelo branco da noiva lhe interessavam. O diabo estampado na gravata do prefeito, o espírito do porco, o rei na barriga do bobo da corte. A timidez da puta, a libido da carola, a fé do cético, a dúvida na testa do professor, a grosseria do garçom, as sapatilhas do vizinho de bigode, o nariz lambuzado de chocolate da pequena suja, a asma do tenor, a caspa do doutor, o azar do goleiro e toda a sorte de geringonças que gentes levam penduradas na espinha.  
            O ser vivo gostava tanto de botar reparo nas gentes à sua volta que descobriu que era mesmo capaz de inventá-las.
            Então ele criou uma porção de gentes diferentes e emprestou suas roupas para elas. As criaturas eram fantásticas! E tinham cada ideia!
            Inventar gentes se tornou o passatempo mais importante do universo para aquele ser vivo. E ele fazia isso muito bem! Às vezes a gente até ficava em dúvida se quem falava com os trajes do ser vivo era o próprio ser vivo ou uma de suas gentes inventadas.
            Vinha gente de todo lugar conhecer as gentes que o ser vivo inventava. Era bonito de ver o servivozinho ser aplaudido de pé! E ele ficava muito feliz em fazer aquela gente sorrir. E também ria alto! E criava mais gentes e as vestia com mais roupas suas.
            Até que um dia ficou nu.



            Certas pessoas de língua afiada ficaram com medo do ser vivo, porque ele desfilava sem vergonha por elas às gargalhadas, balançando aquele coraçãozão pulando do peito estufado.
            Então as certas pessoas acharam certo espetar alfinetes no coração gigante do ser vivo.
            Decerto aquela zombaria lhe embargasse a glote e talvez ele até molhasse escondido a fronha de seu travesseirinho.  
            Mas o ser vivo era esperto! Uma pirueta, duas piruetas e zás: empurrava com a barriga os alfinetes bem lá para o fundo do coração, assoprava um tiquinho e se jogava no mundo feito foguete disparado no espaço. 



            O ser vivo gostava mesmo de viver!
            E quanta coisinha cabia dentro daquele coração enorme!
            Só que de tanto guardar pedacinhos de coisas e de tanto levar alfinetadas das certas pessoas de língua afiada, o coração enorme do ser vivo ficou muito pesado. E o coração quase destroçado-já pelas quinquilharias começou a sair pela boca.


            Para não virar do avesso, o ser vivo precisou endurecer seu coração gigante. O coração do ser vivo esfriou, esfriou, esfriou... até que ficou durinho feito pedra!
            O ser vivo fez muitos aniversários carregando seu coração pétreo e já nem se lembrava direito de ouvi-lo bater quando então aconteceu isso: o coração gigante, duro, gelado e pesado do ser vivo levou um coice!
            É que o burro bravo que morava lá dentro e adormecia embalado pelo chacoalhar das bugigangas despertou de seu sono profundo.
            O burro nasceu dentro do coração do ser vivo não se sabe como. Quando ainda era um burrito manso, obedecia ao ser vivo docilmente. Se o ser vivo estava feliz, pinoteava em festa. Se estava triste, o filho de uma égua empacava três semanas. Se por acaso o ser vivo sentia dor de estômago, o burro desembestava a falar até o ser vivo arrotar tudo o que estivesse entalado nas vísceras.
            Mas depois que o coração gigante do ser vivo empedrou, o asno se emburrou. Vai ver fosse um sufoco morar naquele lar apertado...  
            O caso é que o jerico despertou babado de sede!
            Então o ser vivo cultivou umas nuvens cinzas que cresceram, cresceram e choveram água-que-passarinho-não-bebe.
            O burro bebeu da água-que-passarinho-não-bebe e ficou tão forte e tão bravo que arrebentou a linha que o amarrava e escapou do coração, fugindo pelos poros. Aí o burro bravo encarou o ser vivo de frente, meteu-lhe um cabresto e cravou-lhe as esporas. E o ser vivo cavalgou com seu jegue montado no lombo até o oco do inferno.



            Mas o ser vivo gostava muito mesmo de viver! E achou aquilo divertido! Teve a sensação de que agora usava 100% de sua cabeça animal e relinchou orgulhoso, sacudindo as cangalhas. Foram sete madrugadas viradas no jiraya. Por onde passava, o ser vivo levantava poeira e deixava um rastro.
            Quando a farra terminou, o ser vivo amarrou o burro novamente no coração e cantou para niná-lo.
            Então o ser vivo criou gentes cheias de vazio. As criaturas falavam feito o homem da cobra e eram surdas e secas que nem cactos.
            As certas pessoas de língua afiada ficaram ainda mais temerosas do ser vivo e espetaram mais alfinetes em seu coração. Os alfinetes despertaram o burro bravo, que acordou com muita sede.
            O ser vivo cultivou nuvens cinzas que choveram água-que-passarinho-não-bebe, aí o burro bebeu da água-que-passarinho-não-bebe, ficou forte e bravo, escapou do coração, encarou o ser vivo de frente, meteu-lhe um cabresto, cravou-lhe as esporas, o ser vivo cavalgou com seu jegue montado no lombo até o oco do inferno, achou divertido e quando a farra terminou, o ser vivo amarrou o burro novamente no coração, cantou para niná-lo e criou gentes cheias de vazio, então as certas pessoas de língua afiada ficaram ainda mais temerosas do ser vivo e espetaram mais alfinetes em seu coração e  os alfinetes despertaram o burro bravo que acordou com sede e o ser vivo cultivou nuvens cinzas que choveram água-que-passarinho-não-bebe, aí o burro bebeu da água-que-passarinho-não-bebe, ficou forte e bravo, escapou do coração, encarou o ser vivo de frente, meteu-lhe um cabresto, cravou-lhe as esporas, o ser vivo cavalgou com seu jegue montado no lombo até o oco do inferno, achou aquilo divertido e quando a farra terminou, o ser vivo amarrou o burro novamente no coração, cantou para niná-lo e criou gentes cheias de vazio, então as certas pessoas de língua afiada ficaram ainda mais temerosas do ser vivo e espetaram mais alfinetes em seu coração e os alfinetes despertaram o burro bravo que acordou com sede e o ser vivo cultivou nuvens cinzas que choveram água-que-passarinho-não-bebe, aí o burro bebeu da água-que-passarinho-não-bebe, ficou forte e bravo, escapou do coração, encarou o ser vivo de frente, meteu-lhe um cabresto, cravou-lhe as esporas, o ser vivo cavalgou com seu jegue montado no lombo até o oco do inferno, achou aquilo muito divertido e quando a farra terminou, o ser vivo amarrou o burro novamente no coração, cantou para niná-lo e...
            ... o burro bravo estava dormindo quando de repente uma ficha que rodopiava no vento despencou igual uma vaca na cabeça do ser vivo.
            O ser vivo ficou tonto com a pancada e até se esqueceu do que-horas-são. Subiu um degrauzinho de uma escada torta que tinha ali e enxergou uma bifurcação mais adiante. Subiu outro degrauzinho, fechou um olho para olhar melhor e avistou dois futuros.
            No futuro-do-lado-de-cá, o ser vivo era bem velhinho e barbudo e banguela e se cobria com um manto azul-roto. Todo senhor de si, empunhava um cajado e blasfemava no centro da praça feito um deus! E inventava gentes com rabo de rato e chifres de boi, que vendia nas esquinas pelo preço de um dedo de prosa. Todas as certas pessoas de língua afiada o temiam. Como se tornara poderoso o ser vivo, naquele sentido de futuro!
            Olhou para o futuro-do-lado-de-lá, mas seu olho não viu nada. Ficou na pontinha dos pés, esticou o pescoço, procurou, procurou e nada. Nenhuma pista.



            Mas o ser vivo gostava mesmo muito de viver e tinha curiosidade. Então ele resolveu caminhar até lá para descobrir o que havia. Mas ao dar o primeiro passo, o burro bravo acordou com sede e lhe deu um coice.
            Foi aí que o ser vivo experimentou um sentimento novo, potente, inexorável: o ser vivo sentiu raiva. Uma raiva-raiventa de dar nó nas tripas. Raiva de ter raiva. Raiva do seu burro bravo! E ficou verde de raiva.
            Com a força que tinha no fígado, o ser vivo encarou o burro de frente, meteu-lhe a mordaça e cravou-lhe as garras. A besta empinou as ferraduras e, debochando, derrubou o ser vivo de primeira!  O ser vivo se levantou, ajeitou o coração enorme mais pro canto esquerdo, encheu os pulmões de ar e sentiu mais raiva ainda. Então, com mais raiva e com mais força, o ser vivo encarou o burro de frente, meteu-lhe a mordaça e cravou-lhe as garras. A besta empinou as ferraduras e, debochando, derrubou o ser vivo na segunda! Aí o ser vivo segurou uma primavera inteira entre os dentes e com muito mais força e com muito mais raiva, encarou o burro de frente, meteu-lhe a mordaça e cravou-lhe as garras. Então o quadrúpede se espreguiçou, espantou uma pulga da orelhinha e acabou-se a peleja genial.



            O ser vivo juntou uns paninhos de bunda, meteu uma viola no bornal e partiu equilibrado no jegue, em direção ao futuro-do-lado-de-lá. Caminhavam em harmonia os dois, ora ligeiro, ora preguiçosos.
            A certa altura, estavam bem distraídos caçando sombra de avião quando se depararam com uma fera na beira da trilha. O nome da fera era Bia e ela era a dona daquela vereda.
            A fera encarou o ser vivo no além dos olhos, grudou-lhe uma estrela na testa e, sem falar palavra, a Bia lhe sorriu.
            E nessa hora, o burro sentiu toda a sede da estiagem evaporar sua saliva. O ser vivo desceu do burro e foi com seu cantil buscar leite de jaca numa bica, para seu mulo beber. O jumento bebeu do leite de jaca, soltou baixinho um atchim e acelerou seu pocotar.
            À medida que seguiam pelos trilhos da locomotiva, na estrada do futuro-do-lado-de-lá, a Bia ia espalhando uns presentes para o ser vivo recolher: um jabuti, um papel, um alto-falante, um bambolê, uma ruga. Mas o coraçãozão do ser vivo já não tinha mais espaço para guardar tantas coisas queridas demais. O coração enorme até parecia que ia explodir!
            Então o ser vivo libertou as coisinhas que havia dentro de seu coraçãozão e desprendeu todos os alfinetes. As coisas que serviam só para o nada, ele enterrou a sete palmos e jogou por cima uma pá de cal. As coisinhas cristalizadas, ele lapidou com ponta de diamante. As mais bonitas, ele guardou nas gavetas dali do coração. Umas menores, assoprou igual dente-de-leão. E devolveu aos seus donos os mil perdões que lhes devia.
            Eis que o coração do ser vivo reamoleceu e ficou leve, leve, levinho... até que coube outra vez por dentro do peito.
            Um dia a Bia presenteou o ser vivo com um par de asas. Ele vestiu suas asas e mirou o espelho. Como estava belo e como seus olhos brilhavam longe! E o ser vivo quis voar.
            O espelho explicou ao ser vivo que para alçar vôo ele tinha de abrir a mão, torcer o braço e dar de ombros para seu burro. Então o ser vivo guardou o burro numa gaiola, pendurou-a dentro de seu coraçãozinho e cantou a música mais bonita de todas para o animal ninar.
            Satisfeito e confiante, o espelho desatarraxou o umbigo do ser vivo, virou-o de costas e lhe pregou um cu.
            E lá se foi o ser vivo todo lindo pela vida, empetecar as páginas brancas de seu caderninho de artista.
            Dizem que desde aquela feita o ser vivo cuida de seu cu como uma onça cuida da cria. E nunca, NUNCA se ouvira dizer que tenha se metido em alguma burrada.  
            Falam também que seu jumento segue roncando deveras e que seu coração pulsa um baticum bem ritmado. Soube-se que a estrela em sua testa finalmente se acendeu.  De certas pessoas não se tem notícias.
            E o ser vivo inventou um anjo.




Livia Mannini

(novembro/ 2016)




Dia-a-dia, post-a-post...


Pantera
Dependente confessa de cafeína, abro o armário da dispensa logo cedo procurando meu pozinho mágico e dou de cara com uma aranha balançando uma teia nova, cruzando o vazio de lado a lado. Tentei pegar no tranco... 
Respondi rabugenta a uns e-mails aqui, uma mensagem de WhatsApp acolá, mas minha concentração estava realmente pifante.
Com a determinação e energia de uma esponja-do-mar, enfiei-me na primeira vestimenta que puxei do cabide, prendi um rabo de cavalo para disfarçar a tragédia capilar matutina e desci trôpega pela escadaria do bairro de Fátima, ansiosa por chegar com o dedão do pé ileso ao bar da esquina, debaixo de um vestido de malha cor-de-rosa – chock – com listras pretas. 

Aproveitaria a descida para pagar contas no caixa eletrônico, recarregar celular e mais uns dois etcétereas pelo caminho. 
Não sei se porque frio ou fraco, ou se porque a reportagem na TV sobre sapatilhas femininas instigava uma soneca, o fato é que o café-com-leite rapidinho no balcão não foi suficiente para despertar minhas pálpebras direito. E isso eu bem pude comprovar ao tropeçar na bengala de uma senhorinha que saía da agência bancária, quase provocando um boletim de ocorrência. 
Rendida, virei à esquerda e entrei no supermercado, disposta a ser ligeira e não me deixar persuadir pelo silfos das prateleiras insistentes em me lembrar que também precisava comprar leite, que acabou o queijo ralado, que o vinho chileno está em promoção e que o sabão em pó só dá para mais uma baciada.
Passei a meia-dúzia de coisinhas pelo caixa, recarreguei o pré-pago – inclusive descobri que as operadoras de caixa que mais efetuam recargas de celulares no mês ganham como premiação um dia de folga – desvencilhei-me das sempre tão grudadas sacolas plásticas e pus-me a conferir o recibo, desconfiada da facada. 
Zás! O Extra dando um rolé de R$ 2,30 a mais no quilo do arroz integral! Fui lá conversar com o gerente mui solícito, que percebendo a barbárie das etiquetas invertidas, olhou compreensivo para minha cara amassada e concordou em restituir-me os trocados. 
- Meia passagem de metrô! – respondi, grata, com uma piscadinha.
Saí dali rebolante, coluna ereta, queixo pra cima, tentando não arquear os ombros com o peso das sacolas – aqui, bolsas. 
Cruzo a rua, caminho 2 quadras e passo em frente ao mesmo boteco do desjejum, que agora já reunia os habitués matinais: um senhor com jornal em punho resmungando qualquer coisa sobre a prefeitura, o taxista e um outro sujeito, caninha no bico às 10h, que ao me ver passar daquele jeito, Empoderada da Silva, soltou com um sorrisinho malandro uma mistura de cantada manjada com feedback sincero, como só os bêbados sabem fazer:
- Param-param, param, param-param-param-param-param... pararam-pararam. 
Entre pingas e pingados, cada um com seus vícios.


(16/05/2017)

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Intervalo pro almoço durante uma formação na Barra, pouco depois de eu ter feito umas perguntas no auditório, com meu indisfarçável sotaque que involuntariamente insiste em emitir aquele R retroflexo e acentuar com força as paroxítonas. 
Peço licença pra sentar-me à mesa com uns participantes que ainda não conhecia. O colega me surpreende: "Paulista, né? De São Bernardo do Campo, né? 
" Orra, meeeeu! Como é que ele conseguiu ser tão específico? Só me restou pedir o prato:

- Garrrrrçom , porrrr favorrrr, tem frango com polêêêênta?

(11/04/2017)

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- Motorista, dirija com mais cuidado. O senhor está sacolejando a gente. Precisa lembrar que está transportando pessoas. Sua direção é muito perigosa! - disse uma voz trêmula no fundo do ônibus extraordinariamente vazio, a caminho da praça XV.
- Minha senhora, reclame com a prefeitura e peça para tamparem esses buracos da rua. E a senhora pode ir sentadinha aí que não vai acontecer nada. Por que está em pé?...
E iniciou-se o bate-boca. Outra mulher se solidarizou com a senhorinha e engrossou o caldo:
- Nós pagamos o seu salário!
Aí a senhorinha manda essa:
- Pode abrir, vou descer aqui.
Motorista no contra-ataque:
- Aqui não é ponto, minha senhora.
Pense numa senhorinha indignada.
Tentei abstrair, mas não consegui:
- Dá licença de meter meu bedelho. A senhora está certa, o motorista está dirigindo muito mal, mesmo. Mas ele também tem razão, porque não pode parar fora do ponto.
Plaft, ploft, pum....paw, pow, pumba pra cima de mim.
Ri feliz, por dentro, enquanto ambas as partes, agora de acordo, resmungavam abaixando a voz adjetivos como "intrometida", "abusada" etc. etc..
Ai, ai... Tão fácil desagradar a gregos e troianos...

(20/03/2017)

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Desço do Troncal 2 em Ipanema, ajeito a mochila pra pegar o celular, cadê? Bolso aberto por mãos experientemente leves. Fiquei puta. Corri pra frente do busão, fiz o motorista parar, entrei e mandei com cara séria:
- Pessoal, é o seguinte: meu celular está dentro deste ônibus. Então, por favor, quem tiver encontrado joga no chão e está tudo certo. Eu dependo dele pra trabalhar. Pode ser?
Virei pro lado pra pessoa não ter o constrangimento de ser identificada. 15 segundos e um burburinho lá no fundo: "achou, aqui, aqui".
Recuperei o aparelho finalizando com um sermãozinho, olhando pra geral: 
- Valeu, maluco. Mas vê se pensa melhor pra saber se vale a pena fazer essas merdas na vida. 
Dia de sorte. Ultimamente o jeito é chamar o ladrão, mesmo.


(19/02/2017)

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Sexta-feira, fim de expediente, já vou logo avisando: se me der na telha, amarro meu turbante vermelho, penduro o crucifixo por dentro do bojo, jogo katchup na pamonha, trago umas tequilas, me agarro com Iansã, pinto a cara com urucum e rodo uma saia indiana entoando marchinhas politicamente incorretas com meus amigos gays no forrobodó lá da esquina. Depois curo minha overdose antropofágica com do-in e chá de boldo. 
Porque cultura na pimenta dos outros é bom e eu gosto.

(17/02/2017)